Surubim, terra do rock?
- Mnemósine

- 6 de jan.
- 4 min de leitura
Por Júlia
A mais de 120 km de distância da capital recifense, uma cidade no interior de Pernambuco, conhecida como a Capital da Vaquejada, carrega consigo algo curioso: tem gente fazendo e cantando rock.
Surubim, a cidade referida acima, berço de grandes artistas como Chacrinha (apresentador) e Capiba (músico), terra do “mamulengo afamado, do forró e do ‘coco torrado’”, dentre todas as outras coisas cantadas nos seu hino oficial, teria espaço para mais um título, dessa vez como a terra do rock?

Primeiramente, teria que responder que não. Em uma cidade que faz suas maiores festas se fecharem para o sertanejo e forró, o rock não caberia nesse espaço. Claro, inocência minha achar que em um lugar tão vasto de quase 70 mil habitantes e um território de aproximadamente 253 km² não teria espaço para um dos maiores gêneros já criados.
Mas, foi no mês de julho deste ano (2025), que meu horizonte se expandiu ao conhecer o que seria a banda de maior renome e excelência do rock surubinense, Hanagorik. A banda surgiu no ano de 1991, composta inicialmente por Tuca Araújo, já falecido (guitarra), Daniel Costa (guitarra), Totonho Gomes (baixo), Junior Costa (bateria) e Jonas Vilar (vocal). É um dos grupos musicais mais importantes do metal nordestino e o primeiro do gênero do estado pernambucano a fazer uma turnê pela Europa.
Inicialmente tocada para os amigos ou em palcos pequenos, a banda alcançou diversos feitos ao longo dos anos. Mas destaco que um dos seus principais feitos foi “quebrar” portas e criar toda uma cena musical local, para que outros artistas como eles surgissem e ganhassem visibilidade, nesse mercado tão difícil e escasso, principalmente nas cidades pequenas. A exemplo dos grupos Insurrection Down e Mennarca e mais contemporânea a banda Lado Fim Do Mundo (da qual sou apaixonada pelo EP O Mesmo Lugar de Sempre, que mistura símbolos locais nas letras e uma voz suave da vocalista que me transporta para um novo mundo tão familiar que é minha própria cidade).
Hanagorik entrou em hiato no ano de 2010, mas retornou em 2017, com três integrantes iniciais (Tuca, Totonho e Júnior Costa) e contou com dois novos integrantes, André Arcelino e Dênis Costa. No ano seguinte, Júnior Costa saiu e Eduardo Sousa o substituiu. O seu álbum de estreia foi o Uncivil (1997) que condensa o estilo Trash/hard core e possui a música Carcaças e Carcarás (para mim uma das melhores canções do grupo), cantada em português, diferente das outras canções que são em inglês. A faixa We Gonna Make The Fuckin’ Rules, tirada da segunda faixa desse álbum, foi publicada somente em 1999 e reproduzida pela MTV brasileira.

O grupo lançou ainda outros trabalhos como For Kids With Some Problems (2001), The Caravan (2003) e o demo Screaming Again (1995). Os anos de lançamento de cada trabalho podem ter pequenas variações, já que os registros encontrados mudam em cada site que fala sobre a banda. Mas há uma certeza: Hanagorik mostrou que é possível tocar rock no interior. E mais que isso: 34 anos depois ainda movimenta toda a cena cultural da cidade.
Uma das coisas mais legais que aconteceu, ainda este ano, em Surubim foi a realização do primeiro Rock Celebration, um evento que durante os finais de semana de julho reuniu artistas e pessoas para celebrar a cena do rock. Foi nesse evento que conheci a banda e toda uma cultura nova. Nesses dias, tiveram apresentações, exposições e exibições de documentários, incluindo um sobre a história do Hanagorik. O longa de 2h foi dirigido pelo guitarrista Tuca Araújo e demorou dois anos de pesquisa para ficar pronto. Ele conta com entrevistas, fotos e vídeos tanto dos participantes, como de jornalistas, compositores e produtores musicais que estiveram juntos durante o trabalho da banda. Um outro longa-metragem, também exibido no evento, que mostra a cena cultural do metal é o Pesado - Que som é esse que vem de Pernambuco? de Leo Crivellare e roteiro de Wilfred Gadêlha.
Outro evento que celebra o rock local é o Moto Fest Surubim, que anualmente conta com apresentações de bandas da cidade, convidados das cidades vizinhas e geralmente com uma atração especial para atrair um público maior. No entanto, nesse ano não houve uma atração a nível nacional, mostrando um pouco do descaso dos órgãos governamentais se comparado às demais festividades da cidade que tiveram investimentos pesados nos shows. Mais uma vez, não é que não devemos celebrar e comemorar essas tradições culturais, mas é importante saber que elas não são as únicas. Ampliar o repertório cultural, ainda mais de sua cidade, é reconhecer sua própria cidadania e sentimento de comunidade. É reconhecer o potencial artístico que cada lugar possui e dar voz àqueles que ainda não estão nas grandes mídias (mesmo que esse reconhecimento venha um pouco tarde).
Por último, quando se pensa no que é o rock, muitas coisas podem vir à cabeça, como um gênero que toca apenas três ou quatro acordes, geralmente acompanhado da guitarra, bateria, baixo e uma voz. Ou um estilo de comportamento subversivo e rebelde. Pode ser só um dos elementos ou todos eles juntos, é muito difícil definir algo quando ele consegue abranger muita coisa. Mas para hoje, além de um gênero musical, digo que rock é atitude e é coragem. Até porque o que seria mais rock n roll que caras do interior tentando fazer sua música e botando a cara para fazer disso sua vida?
REFERÊNCIAS
CORREIO DO AGRESTE. Documentário conta a trajetória da banda Hanagorik; lançamento será em 5 de abril. Correio do Agreste, 2019. Disponível em: https://www.correiodoagreste.com/2019/03/documentario-conta-a-trajetoria-da-banda-hanagorik-lancamento-sera-em-5-de-abril.html
BARBIERI, Antonio. Hanagorik: Rock Extremo de Surubim (PE) para o Mundo!. Barbieri, 2010. Disponível em: https://www.celsobarbieri.co.uk/plus/memorias/index.php/brasil-90563/89-hanagorik-rock-extremo-de-surubim-pe-para-o-mundo
MOTOROLA. Como a cena de rock pesado conquistou os palcos do principal festival da cidade. HelloMoto, 2018. Disponível em: https://www.hellomoto.com.br/o-peso-e-a-furia-do-recife/







Comentários