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Surubim, terra do rock? 

  • Foto do escritor: Mnemósine
    Mnemósine
  • 6 de jan.
  • 4 min de leitura

Por Júlia


A mais de 120 km de distância da capital recifense, uma cidade no interior de Pernambuco, conhecida como a Capital da Vaquejada, carrega consigo algo curioso: tem gente fazendo e cantando rock.


Surubim, a cidade referida acima, berço de grandes artistas como Chacrinha (apresentador) e Capiba (músico), terra do “mamulengo afamado, do forró e do ‘coco torrado’”, dentre todas as outras coisas cantadas nos seu hino oficial, teria espaço para mais um título, dessa vez como a terra do rock?

Entrada da cidade. Foto: Evelyn Sousa
Entrada da cidade. Foto: Evelyn Sousa

Primeiramente, teria que responder que não. Em uma cidade que faz suas maiores festas se fecharem para o sertanejo e forró, o rock não caberia nesse espaço. Claro, inocência minha achar que em um lugar  tão vasto de quase 70 mil habitantes e um território de aproximadamente 253 km² não teria espaço para um dos maiores gêneros já criados. 


Mas, foi no mês de julho deste ano (2025), que meu horizonte se expandiu ao conhecer o que seria a banda de maior renome e excelência do rock surubinense, Hanagorik. A banda surgiu no ano de 1991, composta inicialmente por Tuca Araújo, já falecido (guitarra), Daniel Costa (guitarra), Totonho Gomes (baixo), Junior Costa (bateria) e Jonas Vilar (vocal). É um dos grupos musicais mais importantes do metal nordestino e o primeiro do gênero do estado pernambucano a fazer uma turnê pela Europa. 


Banda Hanagorik. Clique na imagem para escutar as músicas disponíveis no YouTube oficial da banda.
Banda Hanagorik. Clique na imagem para escutar as músicas disponíveis no YouTube oficial da banda.

Inicialmente tocada para os amigos ou em palcos pequenos, a banda alcançou diversos feitos ao longo dos anos. Mas destaco que um dos seus principais feitos foi “quebrar” portas e criar toda uma cena musical local, para que outros artistas como eles surgissem e ganhassem visibilidade, nesse mercado tão difícil e escasso, principalmente nas cidades pequenas. A exemplo dos grupos Insurrection Down e Mennarca e mais contemporânea a banda Lado Fim Do Mundo (da qual sou apaixonada pelo EP O Mesmo Lugar de Sempre, que mistura símbolos locais nas letras e uma voz suave da vocalista que me transporta para um novo mundo tão familiar que é minha própria cidade).


Banda Lado do Fim do Mundo. Foto: Instagram da banda. (clique na imagem para ir direto para o Spotify da banda)
Banda Lado do Fim do Mundo. Foto: Instagram da banda. (clique na imagem para ir direto para o Spotify da banda)

Hanagorik entrou em hiato no ano de 2010, mas retornou em 2017, com três integrantes iniciais (Tuca, Totonho e Júnior Costa) e contou com dois novos integrantes, André Arcelino e Dênis Costa. No ano seguinte, Júnior Costa saiu e Eduardo Sousa o substituiu. O seu álbum de estreia foi o Uncivil (1997) que condensa o estilo Trash/hard core e possui a música Carcaças e Carcarás (para mim uma das melhores canções do grupo), cantada em português, diferente das outras canções que são em inglês. A faixa We Gonna Make The Fuckin’ Rules, tirada da segunda faixa desse álbum, foi publicada somente em 1999 e reproduzida pela MTV brasileira.


Nova formação do Hanagorik
Nova formação do Hanagorik

O grupo lançou ainda outros trabalhos como For Kids With Some Problems (2001), The Caravan (2003) e o demo Screaming Again (1995). Os anos de lançamento de cada trabalho podem ter pequenas variações, já que os registros encontrados mudam em cada site que fala sobre a banda. Mas há uma certeza: Hanagorik mostrou que é possível tocar rock no interior. E mais que isso: 34 anos depois ainda movimenta toda a cena cultural da cidade. 


Uma das coisas mais legais que aconteceu, ainda este ano, em Surubim foi a realização do primeiro Rock Celebration, um evento que durante os finais de semana de julho reuniu artistas e pessoas para celebrar a cena do rock. Foi nesse evento que conheci a banda e toda uma cultura nova. Nesses dias, tiveram apresentações, exposições e exibições de documentários, incluindo um sobre a história do Hanagorik. O longa de 2h foi dirigido pelo guitarrista Tuca Araújo e demorou dois anos de pesquisa para ficar pronto. Ele conta com entrevistas, fotos e vídeos tanto dos participantes, como de jornalistas, compositores e produtores musicais que estiveram juntos durante o trabalho da banda. Um outro longa-metragem, também exibido no evento, que mostra a cena cultural do metal é o Pesado - Que som é esse que vem de Pernambuco? de Leo Crivellare e roteiro de Wilfred Gadêlha.


Cartaz divulgado para realização do Rock Celebration. Clique na imagem para ir direto para o Instagram do evento.
Cartaz divulgado para realização do Rock Celebration. Clique na imagem para ir direto para o Instagram do evento.

Outro evento que celebra o rock local é o Moto Fest Surubim, que anualmente conta com apresentações de bandas da cidade, convidados das cidades vizinhas e geralmente com uma atração especial para atrair um público maior. No entanto, nesse ano não houve uma atração a nível nacional, mostrando um pouco do descaso dos órgãos governamentais se comparado às demais festividades da cidade que tiveram investimentos pesados nos shows. Mais uma vez, não é que não devemos celebrar e comemorar essas tradições culturais, mas é importante saber que elas não são as únicas. Ampliar o repertório cultural, ainda mais de sua cidade, é reconhecer sua própria cidadania e sentimento de comunidade. É reconhecer o potencial artístico que cada lugar possui e dar voz àqueles que ainda não estão nas grandes mídias (mesmo que esse reconhecimento venha um pouco tarde). 


Por último, quando se pensa no que é o rock, muitas coisas podem vir à cabeça, como um gênero que toca apenas três ou quatro acordes, geralmente acompanhado da guitarra, bateria, baixo e uma voz. Ou um estilo de comportamento subversivo e rebelde. Pode ser só um dos elementos ou todos eles juntos, é muito difícil definir algo quando ele consegue abranger muita coisa. Mas para hoje, além de um gênero musical, digo que rock é atitude e é coragem. Até porque o que seria mais rock n roll que caras do interior tentando fazer sua música e botando a cara para fazer disso sua vida?







REFERÊNCIAS 

CORREIO DO AGRESTE. Documentário conta a trajetória da banda Hanagorik; lançamento será em 5 de abril. Correio do Agreste, 2019. Disponível em: https://www.correiodoagreste.com/2019/03/documentario-conta-a-trajetoria-da-banda-hanagorik-lancamento-sera-em-5-de-abril.html


BARBIERI, Antonio. Hanagorik: Rock Extremo de Surubim (PE) para o Mundo!. Barbieri, 2010. Disponível em: https://www.celsobarbieri.co.uk/plus/memorias/index.php/brasil-90563/89-hanagorik-rock-extremo-de-surubim-pe-para-o-mundo


MOTOROLA. Como a cena de rock pesado conquistou os palcos do principal festival da cidade. HelloMoto, 2018. Disponível em: https://www.hellomoto.com.br/o-peso-e-a-furia-do-recife/



 
 
 

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