Quando o acesso é limitado, a pirataria surge como uma resposta
- Mnemósine

- 16 de fev.
- 4 min de leitura
Por Laura
Em 2026, numa era completamente moderna e digital, o acesso a filmes de escala internacional ainda é restrito, fazendo com que a pirataria funcione como um meio informal de democratização do acesso.

Nos últimos anos, o cinema brasileiro tem se destacado cada vez mais internacionalmente. Em 2025, o filme “Ainda Estou Aqui” (2024), dirigido por Walter Salles, acumulou prêmios globais, entre eles Oscar, na categoria “Melhor Filme Internacional” e Globo de Ouro, nas categorias “Melhor Filme em Língua Não-Inglesa” e “Melhor Atriz em Filme de Drama” para Fernanda Torres, aumentando o apelo e prestígio pelo cinema nacional.
No mesmo ano, em maio, o filme “O Agente Secreto”, dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura, estreou em Cannes, o maior festival de cinema do mundo. No festival francês, o longa conquistou os prêmios de “Melhor Ator” e “Melhor Diretor”. Já em 2026, ganhou duas das três categorias que concorria no Globo de Ouro: “Melhor Filme em Língua Não-Inglesa” e “Melhor Ator em Filme de Drama” (Wagner Moura). “O Agente Secreto” ainda se juntou a “Cidade de Deus” (2004) como os filmes brasileiros com mais indicações na história do Oscar, com quatro indicações cada.

A obra se passa no Brasil de 1977, no contexto da Ditadura Militar, e conta a história de Marcelo (interpretado por Wagner Moura). Ele, professor especializado em tecnologia, foge de São Paulo para a cidade de Recife em busca de refúgio e recomeço. Apesar do reconhecimento global, o acesso ao filme é difícil para boa parte da população brasileira. A obra é pernambucana e, ainda sim, a distribuição no estado concentrou-se principalmente na capital recifense. Na cidade de Caruaru, por exemplo, os dois cinemas (Centerplex e Planet Cinemas) possuem apenas uma sessão diária cada para o filme. O mesmo acontece no único cinema de Garanhuns, Moviemax Eldorado, com uma única sessão diária às 21h.
Essa limitação se intensifica quando pensamos em quem vive fora dos grandes centros, porque pequenas cidades sequer possuem salas de cinema. Nesse contexto, os espectadores, sem acesso, recorrem à pirataria. Esse cenário me é cotidiano. Moro numa cidade no interior de Pernambuco e sempre que quero assistir a um filme em estreia, que não está no streaming, preciso buscar por outras alternativas não convencionais. Foi assim que eu consegui assistir “Ainda Estou Aqui”, antes do Oscar 2025, e agora com “O Agente Secreto”
Para amantes do audiovisual, é triste ver como estamos à mercê de uma indústria. Filmes que passam por festivais importantes, como o recente “O Último Azul” (2025, Dir. Gabriel Mascaro), vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, tem suas estreias restritas a exibições em capitais ou a circuitos muito específicos, chegando ao streaming apenas meses depois. Essa transição cria um intervalo em que a obra simplesmente “não existe” para grande parte do público. Agora, não há mais locadoras e são poucos os cinemas de rua, que durante muito tempo promoveram experiências inclusivas e acessíveis para público, especialmente de cidades pequenas. Sendo assim, consumo audiovisual depende quase exclusivamente de cinemas e plataformas digitais e que não está nesses espaços acaba sendo invisibilizado.

Com isso, a pirataria surge não apenas como um problema legal ou moral, mas como uma forma de democratização do acesso à cultura. Em 2024, por exemplo, o prefeito de Acopiara, interior do Ceará, exibiu o filme “Divertidamente 2”, que ainda estava em estreia nos cinemas em praça pública. A ação é uma forma de pirataria e dividiu opiniões, mas não podemos discordar que, quando não há cinema próximo, quando o filme não está em streaming ou quando não existe uma forma legal de assistir, recorrer a pirataria se torna, para muitos, a única possibilidade de contato com essas obras.
Essa realidade não se restringe a filmes em cartaz, mas afeta sobretudo produções mais antigas que não estão em plataformas oficiais. Nesse sentido, a pirataria cumpre também um papel de resgate, preservando trabalhos que foram, de certa forma, apagados pela própria indústria audiovisual. Vale lembrar ainda que a presença em streaming não garante acesso, já que, hoje em dia, os preços de assinatura dessas plataformas estão cada vez mais absurdos.
Confesso que assisto muitos filmes através da pirataria e, não me arrependo nem um pouco. Ela me permite conhecer obras que, com certeza, não chegariam até mim por outros meios (cinema, streaming, exibição) devido a diversos fatores que nos afastam (contexto social, histórico e econômico).

Hoje em dia a pirataria se tornou cada vez mais fácil. Você encontra muitos filmes, especialmente estrangeiros e nichados, com legenda/tradução feita manualmente por um grupo de pessoas que ajudam essas obras “esquecidas” a permanecerem vivas e encontrarem novos públicos. Foi assim que eu tive acesso a filmes magníficos como “Daisies” (1966, Dir. Věra Chytilová), “His Motorbike, Her Island” (1986, Dir. Nobuhiko Obayashi), “Happy Together” (1997, Wong Kar-Wai) e muitos outros.
No fim, o que fica evidente é que a indústria audiovisual ainda decide, em grande medida, o que pode ou não ser visto. A circulação dos filmes não acompanha, necessariamente, sua relevância cultural ou artística. E enquanto o reconhecimento global não se traduz automaticamente em acesso local, o cinema segue existindo de forma desigual.





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