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Investimento é garantia de sucesso?

  • Foto do escritor: Mnemósine
    Mnemósine
  • 31 de jan.
  • 6 min de leitura

Por Monique


A indústria audiovisual sustenta a ideia de que grandes orçamentos são sinônimos de qualidade, sucesso e aceitação do público (e, na maioria esmagadora das vezes, esses orçamentos são mesmo responsáveis por um sucesso estrondoso). Produções com investimentos milionários, como por exemplo Vingadores: Ultimato (2019); Batman vs Superman (2016) e Loki (2021) são tratadas como eventos globais, cercadas por campanhas de marketing extensas, ampla distribuição e forte presença nas redes sociais. No entanto, a recepção de muitas dessas produções mostram que dinheiro, por si só, não é suficiente para garantir a satisfação narrativa dos fãs.



Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum observar o movimento contrário: produções menores, com recursos limitados e pouca projeção inicial, tem conseguido conquistar audiências expressivas e forte engajamento, como foi o caso de Skins (2007), Fleabag (2016) e La Casa de Papel (2017). Esse contraste levanta uma questão central para compreender o audiovisual: o que realmente sustenta o sucesso de uma série?


Elenco da série Skins (2017)
Elenco da série Skins (2017)

Neste texto, trago alguns exemplos de grandes produções como Game of Thrones (2011-2019) e Stranger Things (2016-2025), e produções de orçamentos reduzidos, mas que ainda sim alcançaram notoriedade internacional, sendo eles; Skam (2015-2017) e Heated Rivalry (2025).


Desde sua estreia, Game of Thrones foi posicionada como uma produção de alto nível, com forte investimento em efeitos visuais, trilha sonora marcante e elenco com grandes nomes. Mesmo após mais de quinze anos da sua estreia e seis anos da temporada final, a série é lembrada como um fenômeno. De acordo com a RollingStone Brasil a produção rendeu cerca de 3,1 bilhões de dólares em assinatura para a HBO Max, além de bater recordes de audiência (13,6 milhões no último episódio) e ter sido a série mais pirateada da época em que foi exibida.

Porém, a última temporada foi e ainda é amplamente considerada decepcionante e apressada, diante da magnitude que as anteriores eram. Muitos fãs da obra apontam que a dupla David Benioff e D.B Weiss (produtores criadores e também roteiristas) apesar de serem muito elogiados nas temporadas iniciais (quando ainda existiam os livros de George R.R. Martin para embasar os episódios), foi a partir da sexta temporada que a narrativa não teve mais embasamento nas obras, e a coesão da trama começou a decair chegando ao ápice na oitava e última temporada.


Stranger Things, por sua vez, foi uma das maiores produções da Netflix, ainda que, antes disso, tenha sido rejeitada por diversos outros estúdios. O custo médio por episódio da primeira temporada foi de cerca de 6 a 7 milhões de dólares, evoluindo até chegar à última temporada. De acordo com a revista Exame, o orçamento cresceu notavelmente: a 4ª temporada custou cerca de 30 milhões de dólares por episódio, enquanto a 5ª temporada atingiu valores entre 50 e 60 milhões de dólares por episódio.

Poster promocional de Stranger Things 5  (2025)
Poster promocional de Stranger Things 5 (2025)

Com referências nostálgicas cuidadosamente construídas, a série rapidamente se consolidou como um fenômeno da cultura pop. A Netflix transformou cada temporada em um acontecimento global, alimentando o engajamento do público com trailers cinematográficos, produtos licenciados e estratégias constantes de marketing. Esse modelo, no entanto, também cria expectativas elevadas, como já citado no caso de Game of Thrones. Quando uma produção dispõe de todos os recursos possíveis, o público espera não apenas espetáculo visual, mas também coerência narrativa, desenvolvimento consistente de personagens e um desfecho à altura da trajetória construída ao longo dos anos.


As duas primeiras temporadas, de fato, corresponderam a essas expectativas; isso pode ser observado, por exemplo, pela alta aceitação no Rotten Tomatoes, em que ambas obtiveram 97% e 94% de aprovação. Entretanto, fãs da série apontam que o enredo passou a decair a partir da terceira temporada, culminando na quinta e última, em que as críticas se assemelham às dirigidas a Game of Thrones: um desfecho considerado decepcionante e incoerente.


SPOILER DO FINAL DE STRANGER THINGS!


O final de Stranger Things dividiu opiniões justamente por expor um limite recorrente em produções de grande escala: o medo de arriscar. A série opta por soluções narrativas seguras, preserva personagens centrais e quando tenta ousar, na última temporada, matando a protagonista, deixa buracos narrativos muito grandes.


FINAL DO SPOILER!


Diferente dessas produções que já tiveram um investimento milionário desde o início, como já foi citado, existem também produções que mesmo com o orçamento reduzido alcançaram notoriedade internacional, ao que muito se “deve” aos próprios fãs das obras em questão. O autor Henry Jenkins em seu livro Textual Poachers: Television Fans and Participatory Culture, aborda como os fãs participam ativamente na cultura em torno de produções midiáticas, reinterpretando narrativas, criando conteúdo e formando comunidades, os chamados fandom.


A série norueguesa SKAM, por exemplo, utilizava storytelling em tempo real e mídias sociais (Instagram, clipes diários) que fortalecia o engajamento dos fãs. De acordo com o artigo Traduções de fãs de SKAM: Desafiando a hegemonia linguística e cultural popular anglo-saxônica em um fandom transnacional, foram os fãs que foram responsáveis por traduzirem e disseminarem a série a nível global, com as traduções dos episódios sendo feitos em múltiplos idiomas por fãs, ajudando a série a ganhar base internacional e eventuais remakes de outros países.

SKAM (2015)
SKAM (2015)

Os fãs desempenham um papel central na disseminação de obras audiovisuais, atuando como agentes ativos de circulação cultural e promoção orgânica. Por meio de interações em redes sociais, produção de conteúdos derivados, como fanarts, fanfics, edições de vídeo, memes, traduções e análises, o público amplia o alcance das obras para além dos canais oficiais de divulgação. Um exemplo que, apesar de já ter nascido como mainstream, é a edição de um vídeo no TikTok com uma cena da primeira temporada da série Wandinha (2022), na qual a protagonista está dançando e o fã responsável pela edição colocou ela dançando Bloody Mary da Lady Gaga. Após isso, milhares de outros fãs continuaram fazendo edits com essa música, ao passo que a própria Lady Gaga atuou como personagem na segunda temporada.


Heated Rivalry também surge fora do eixo tradicional da indústria audiovisual. Produzida no Canadá, por um streaming pouco conhecido internacionalmente, o Crave, a série, assim como o exemplo anterior, não contou com campanhas globais nem grandes investimentos técnicos. Seu orçamento reduzido impôs limitações claras, desde cenários até recursos de produção. Ainda assim, a série alcançou um sucesso expressivo, impulsionado principalmente pela recepção do público. O que poderia ser visto como fragilidade, se tornou o oposto, uma vez que, a ausência de grandes efeitos visuais desloca o foco para aquilo que sustenta a narrativa: personagens, relações e conflitos.


A química entre os atores, o desenvolvimento gradual das relações e os diálogos menos engessados criam uma sensação de proximidade com o espectador. Heated Rivalry não tenta agradar a todos. Ao contrário, assume riscos narrativos e constrói uma história que aposta na intensidade emocional e na identificação do público. Esse tipo de abordagem reforça uma tendência crescente: espectadores estão cada vez mais atentos à autenticidade. Em um cenário saturado por grandes franquias e fórmulas repetidas, histórias menores, mas emocionalmente consistentes, ganham espaço e relevância.


Heated Rivalry (2025)
Heated Rivalry (2025)

Grande parte do impacto de Heated Rivalry está ligada às suas condições de produção. Cenas gravadas com poucos recursos técnicos exigiram soluções criativas, como maior uso de planos fechados e foco na atuação. Algumas decisões narrativas surgiram não por luxo, mas por necessidade. Diante disso, ao retratar um romance entre dois jogadores de hóquei, sendo esse um cenário marcado por ser agressivo e hostil, o resultado é uma série focada na construção de vínculos.


Um dos aspectos mais relevantes do sucesso de Heated Rivalry é sua repercussão internacional. Sem grande divulgação inicial, como é o caso do próprio Brasil que ainda nem mesmo teve uma estreia oficial, a série ganhou visibilidade por meio das redes sociais, de modo que chegará a estrear oficialmente dia 13 de fevereiro pela HBO Max com episódios semanais.

O sucesso repentino de Heated Rivalry também impactou profundamente o elenco. Atores, antes pouco conhecidos, passaram a ser reconhecidos internacionalmente, tiveram aumento significativo de seguidores nas redes sociais e começaram a receber convites para novos projetos. Connor Storie, um dos protagonistas da série, conta que trabalhava como garçom antes do lançamento oficial de Heated Rivalry. Oito meses depois da estreia, ele e seu parceiro de elenco Hudson Williams foram convidados a apresentarem uma categoria do Globo de Ouro.


Colocar Stranger Things e Heated Rivalry lado a lado não significa estabelecer uma hierarquia de qualidade, mas compreender dois modelos distintos de produção e recepção. De um lado, uma série construída como produto global, sustentada por marketing e investimento contínuo. Do outro, uma obra que se impõe pela narrativa e pelo vínculo afetivo criado com o público.



Enquanto Stranger Things representa o sucesso planejado e controlado, Heated Rivalry simboliza o sucesso orgânico, imprevisível e, em muitos aspectos, mais íntimo.

Em um cenário cada vez mais saturado, talvez o futuro do sucesso esteja menos ligado ao dinheiro investido e mais à coragem de contar boas histórias, mesmo quando os recursos são escassos.



 
 
 

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