top of page
Buscar

O cinema como uma linguagem em Sentimental Value

  • Foto do escritor: Mnemósine
    Mnemósine
  • 2 de mar.
  • 6 min de leitura

Por Júlia


Sentimental Value (2025), do diretor Joachim Trier, com duração de 2h13min, acompanha a vida de duas irmãs, Nora (Renate Reinsve) e Agnes Borg (Inga Ibsdotter Lilleaas), reencontrando seu pai Gustav Borg (Stellan Skarsgård), um aclamado diretor de cinema. Ele tenta se aproximar das filhas ao oferecer o papel principal para Nora em seu novo filme. Porém, ao ter o papel recusado por ela, o diretor contrata Rachel Kemp (Elle Fanning), uma atriz em ascensão, para atuar nele. O drama mostra uma família fragmentada tentando se conectar através da arte de maneira bastante singular. 

Poster do filme
Poster do filme

Para Nora, a arte de interpretar pessoas no teatro serve para mergulhar nos sentimentos e perspectivas de outro alguém para que possa se sentir confortável com seus próprios sentimentos. Já para Gustav, sua relação com o cinema também é extremamente íntima, pois ele usa desse meio como uma linguagem para se comunicar ao dirigir filmes bastante pessoais. Essa foi  a maneira que ele encontrou de plasmar sua própria vivência, já que não consegue se comunicar somente com palavras. Por fim, Agnes, a filha mais nova, não seguiu uma carreira artística, mas teve sua relação com a arte quando era pequena ao atuar em um filme dirigido pelo seu pai. Em certo momento do longa, ela admite que foi a única vez que se sentiu vista por ele.


A única relação que não é atravessada pelo cinema ou o teatro, é a das irmãs, e “curiosamente” a que transmite ser a relação mais genuína. Uma das melhores cenas protagonizada pelas duas foi o diálogo que acontece entre 1h56min e 1h59min, que mostra como a infância das duas foram centrais na construção da identidade e como o vínculo inseparável delas foi essencial para a vida de cada uma. Até as interações entre avô e neto (filho da Agnes) são perpassadas pelas telas, seja quando o avô deu de presente filmes no aniversário do neto ou ao ensinou o menino como gravar.

"Por que nossa infância não arruinou você? - Tem uma grande diferença na forma que nos crescemos. Eu tive você." (Cena do filme)
"Por que nossa infância não arruinou você? - Tem uma grande diferença na forma que nos crescemos. Eu tive você." (Cena do filme)

-

















É difícil gostar de Gustav, mesmo sabendo de sua infância traumática e a boa relação que ele mantém com Rachel Kemp. É mostrado muitas vezes como uma pessoa difícil de lidar, e aos olhos de Nora, é um pai que a abandonou e que escolheu viver o cinema ao invés da monotonia da família. Assim, cria-se uma certa antipatia pelo personagem. A ideia de se aproximar dela oferecendo um papel é um sentimento ambíguo, já que não é possível entender essa aproximação como interesse artístico ou como algo genuíno, visto que é a única maneira dele conseguir se expressar de forma afetiva. 


Ao mesmo tempo, a redenção do pai através dos filmes (a linguagem que domina) mostra que o reconhecimento final entre ele e Nora (que possuíam a relação mais conturbada) era bastante possível. Essa cena também é um dos pontos altos do filme, pois foi a melhor maneira de finalizar a relação dos dois com um pacto sutil e silencioso de reconhecimento entre pai e filha que a muitos não se entendiam. Nora ao finalmente aceitar o papel, escrito exclusivamente para ela, entende que aquele roteiro serviu para ressignificar quem era seu pai e suas próprias memórias que tinha dele. Serviu também para que entendesse que, assim como ele, os dois eram extremamente sensíveis e portanto, artistas. 


Cena do reconhecimento
Cena do reconhecimento

O filme poderia soar como mais um clichê de família disfuncional, mas a escolha de Trier de fazer um filme dentro do filme e colocar a casa como um elemento funcional dentro da história trouxe um diferencial para o tema. O roteiro escrito por Trier e seu parceiro Eskil Vogt pauta a arte como uma ponte de comunicação entre pessoas que têm dificuldade de se expressar e não conseguem falar sobre coisas importantes de forma direta, como disse Vogt (G1, 2025). Vogt ainda acrescenta que queriam ver se a arte poderia auxiliar em momentos em que há uma vulnerabilidade na comunicação. Para Gustav, o cinema é a linguagem que ele domina e consegue transformar suas dores em material artístico, já para as filhas, essa maneira de enquadrar os sentimentos é um obstáculo, porque os afasta. O filme consegue trabalhar bem essa dualidade e que resulta no reconhecimento final. 


A metalinguagem do cinema também foi utilizada para fazer uma crítica a era dos streamings, quando Gustav responde de forma retórica a um entrevistador que perguntou se o filme iria sair nos cinemas (“Onde mais sairia?”). Seus colegas de trabalho representam a velha guarda de como fazer filmes sem a interferência das grandes indústrias. Essa discussão saiu das telas e chegou no discurso de Skarsgard ao vencer o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante: “em um cinema onde as luzes se apagam e eventualmente você compartilha a vibração com outras pessoas. Isso é mágico! Cinema deve ser visto nos cinemas ". Tanto essa fala como o roteiro são um ato de amor pelo cinema. Dessa forma, o personagem/ator e o diretor transformam sua visão de mundo para a sétima arte. 


Embora o streaming tenha surgido para democratizar o cinema, hoje, essa não é mais a realidade. Isso porque, com a criação de diversas plataformas (Netflix, HBO MAX, Prime Video, Globo Play e entre outras) dificulta ainda mais o espectador encontrar um filme. Essas plataformas além de cobrar altos valores (e ainda com anúncio) para que seja possível assistir a um filme, tem dispersos as obras em cada um deles, “obrigando” o cliente a assinar determinado streaming que possua o filme em seu catálogo. 

Stellan Skarsgård no Globo de Ouro
Stellan Skarsgård no Globo de Ouro

A metáfora da casa como um elemento vivo, que sente, participa e assim como os seres humanos possuem “rachaduras” é uma boa maneira de entender a dinâmica familiar dos Borg. A casa ancestral carrega anos de sentimentos guardados e fissuras irreparáveis pela mistura de silêncios e barulhos que ocorreram ali. Ela esteve presente desde os antepassados de Gustav e foi o lar de suas filhas durante a infância, sendo o cenário escolhido para seu filme, já que assim como a família a casa contém inúmeras feridas e memórias.


Por fim, não é atoa que o filme recebeu 19 minutos de aplausos no Festival de Cannes, ficando em terceiro lugar do filme mais aplaudido da história do festival, atrás apenas de O Labirinto do Fauno, que foi aplaudido por 22 minutos em 2006; e Fahrenheit 11 de setembro, aplaudido por 20 minutos em 2004. Além disso, ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante no Golden Globes, sendo indicado em oito categorias. Já no Oscar, recebeu nove indicações, entre elas melhor filme e melhor filme internacional; é um dos principais concorrentes de Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho. Mais uma vez o diretor noruegues conseguiu expressar temas sensíveis em poderosos diálogos com uma fotografia excelente, como já tinha feito em A Pior Pessoa do Mundo em 2021. 



Cinema como suspensão proposital da realidade


No livro Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez, encontra-se uma pequena passagem sobre o cinema na cidade de Macondo: 

Indignaram-se com as imagens vivas que o próspero comerciante dom Bruno Crespi projetava no teatro com as bilheterias de boca de leão, porque um personagem morto e sepultado num filme, e por cuja desgraça foram vertidas lágrimas de aflição, reapareceu vivo e transformado em árabe no filme seguinte. O público que pagava dois centavos para compartilhar as vicissitudes dos personagens não conseguiu aguentar aquela trapaça inaudita e arrebentou as poltronas. O prefeito, pressionado por dom Bruno Crespi, explicou através de um decreto que o cinema era uma máquina de ilusão que não merecia as explosões passionais do público [...] (Márquez, p. 143, 2024)


Macondo, a cidade fictícia construída pelo casal José Arcádio Buendía e Úrsula Iguarán em conjunto com vários amigos, estava passando por grandes mudanças com a chegada de novas invenções, como as imagens vivas (o cinema). Surpreendidos pelas imagens que se movimentavam, assim como na “vida real”, o povoado não compreendeu que o que passava era ficção. Essa passagem não é distante do que aconteceu quando houve a primeira exibição de um filme em 1895 na França pelos irmãos Lumière, quando os espectadores saíram correndo ao ver um trem chegando na tela. A revolta dos cidadãos de Macondo e a reação de medo na primeira exibição é compreensível quando não se entende o cinema, assim como as outras artes, como uma suspensão proposital da realidade (ainda mais quando essas duas situações foram o primeiro contato). 


No entanto, fora de Macondo e anos depois do filme dos irmãos Lumière, o entendimento do cinema como a suspensão proposital do real ainda não é senso comum. Isso porque, alguns comentários defenderam que o filme Sentimental Value (2025) não é emocionante o bastante por não se conectarem e nem se reconhecerem no drama retratado. Eis aqui um grande problema na crítica atual, um filme é bom ou ruim, dependendo se ele retrata

fielmente sua realidade e de quanto se é visto nele. Abaixo alguns desses comentários:


















Porém, ao reduzir um filme somente à pauta da identificação e da fidelidade com o real, ignora não só o seu poder narrativo, mas também a forma que ele foi feito. E no filme de Trier é possível enxergar ambos os aspectos.


 
 
 

Comentários


© 2025 Mnemosine

bottom of page