De Star Wars a Harry Potter: elementos que tornam uma narrativa fantasiosa envolvente
- Mnemósine

- 6 de abr. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 7 de abr. de 2025
Por Laura
Eu sou muito fã de sagas de ficção e fantasia e a cada vez que eu consumo mais desse tipo de narrativa, percebo o quanto elas têm em comum. Em várias delas dá para se notar estruturas muito parecidas, seja em um padrão de desenvolvimento dos personagens ou em uma sequência comum de acontecimentos. Quanto a isso, Star Wars e Harry Potter me chamaram bastante atenção. Já conheço e acompanho essas duas sagas há alguns anos e sempre que eu revia ou relia algo, percebia muitas semelhanças.
Surge então, esta análise/comparação crítica onde aponto 4 principais pontos que Harry Potter e Star Wars (e até outras sagas) possuem em comum e como isso é estrategicamente pensado para garantir histórias envolventes que atraiam a atenção do público. É importante ressaltar que para essa discussão, será usado como base apenas os acontecimentos cânones das histórias. Os 7 livros de Harry Potter e as duas primeiras trilogias de Star Wars (do episódio I ao VI).
1. O escolhido
Este primeiro ponto parte do pressuposto apresentado pelo autor Joseph Campbell em seu trabalho O Heroi de Mil Faces (1949), onde ele apresenta uma estrutura de três fases, que acompanham 17 etapas, utilizada para contar histórias. Cada uma dessas 17 etapas vai configurar “a trajetória do heroi”, desde a sua apresentação até os desafios enfrentados que o levam ao seu final glorioso. A primeira etapa da primeira fase “A Partida” é intitulada “O chamado da aventura”. Aqui, o protagonista é introduzido ao público e recebe um desafio que vai tirá-lo do seu ambiente e o levá-lo para um lugar desconhecido. Em Star Wars essa etapa acontece duas vezes, com dois personagens, em dois momentos diferentes. Com o Luke Skywalker, em Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança (1977) e com o Anakin Skywalker em Star Wars: Episódio I - A Ameaça Fantasma (1999).
Em ambos os casos os dois estavam vivendo normalmente suas vidas no planeta Tatooine quando foram surpreendidos por um acontecimento que mudou a trajetória de suas vidas para sempre. Com o Luke, quando ele assiste a mensagem da princesa Leia transmitida pelo droide R2-D2 e decide buscar formas de ajudá-la, e com o Anakin, quando ele encontra com o cavaleiro jedi Qui-Gon Jinn, que mais tarde o liberta do sistema escravista em que vive e o oferece a oportunidade de ir embora e passar pelo treinamento jedi. No entanto, nesse primeiro tópico, vamos focar no Anakin Skywalker, uma vez que tanto ele quanto o Harry Potter são conhecidos em suas histórias como “o escolhido”.

O primeiro livro, Harry Potter e a Pedra Filosofal (1997), introduz o Harry, que mora na casa dos seus tios. Ele, assim como Skywalker, é infeliz onde vive e sonha com o dia que vai conseguir ir embora. Seguindo a mesma linha de acontecimentos, Potter também conhece alguém, o Hagrid, que vai apresentá-lo um mundo novo (o dos bruxos) e assim como o Qui-Gon Jinn fez com o Anakin, vai lhe oferecer a chance de ir embora.
Em torno dos dois personagens gira uma profecia: há um destino que os colocou diante de um grande desafio e eles são os escolhidos para completar uma missão que promete mudar o universo onde estão inseridos. Tanto os outros personagens quanto o público os conhecem “o escolhido” e os depositam fé e expectativas, acreditando que, quando chegar o momento, Anakin e Harry completarão os seus destinos.
2. Um mestre com idade avançada
Para completar esse destino, os personagens vão precisar de alguém para guiá-los, uma vez que é tudo muito novo para eles. O mentor é um elemento fundamental para a construção da jornada do heroi, e é sobre ele que vamos abordar nesse tópico. Em ambas as sagas, ele é representado por uma figura masculina mais velha, cuja idade nunca é revelada, e que ocupa uma posição de liderança, o que o torna alguém respeitável. Como é característico desse papel, ele transmite grande conhecimento e muitas vezes dá a entender que é capaz de prever o futuro, também aparenta possuir poderes ou habilidades a mais, acessíveis apenas a ele ou a um seleto grupo de pessoas.
Geralmente esses personagens são usados pelos escritores das histórias para transmitir mensagens diretamente para o público. Em Star Wars e Harry Potter, essas figuras são representadas pelo mestre Yoda e pelo Dumbledore, respectivamente. Ambos, apesar de não serem figuras centrais nas sagas (digo em questão de quantidade de aparências em cenas) são os responsáveis por transmitir conhecimentos e ensinamentos para que os mocinhos completassem os seus destinos.

Dumbledore, diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts e conhecido no mundo bruxo por seus grandes feitos, foi o responsável por conduzir o Harry durante sua trajetória para enfrentar o grande inimigo, Voldemort. Já o Yoda, foi um elemento central na vida dos “dois herois de Star Wars”, Anakin e Luke. Indo pela ordem cronológica, o Yoda nos é apresentado, ainda no episódio I, como O Grande Mestre Jedi, sendo líder da Ordem Jedi e tendo treinado mais de 800 deles. Ele foi um grande aconselhador do Anakin durante os episódios II e III, que marcam os períodos da República Galáctica e das Guerras Clônicas, que sempre o buscava para desabafar devido aos pesadelos recorrentes que tinha. Já para o Luke, Yoda se apresenta muito mais como um mentor. É ele que vai ser responsável por treiná-lo durante os momentos que marcam o episódio V - O Império Contra-ataca (1980) e no episódio VI - O Retorno de Jedi (1983).
Uma vez que a Ordem Jedi foi extinguida, o mestre fica responsável por treinar Skywalker e o apresentar os princípios da Força, conduzindo-o pelas escolhas “certas”. Assim como o Dumbledore faz com o Harry, o Yoda diz para o Luke quando chega o momento certo de concluir o seu destino e enfrentar o grande vilão.]
3. Dualidade moral nas sagas
Outro elemento recorrente em sagas de ficção, em geral, é a nítida divisão entre o bem e o mal. Essa separação é apresentada de forma bastante clara, logo no início da história, e é marcada por personagens geralmente posicionados em um dos dois extremos. O heroi permanece heroi até o fim da história, assim como o vilão nunca deixa de ser vilão. Embora essa estrutura ajude a construir o conflito principal da narrativa, ela pode soar simplista em casos onde o escritor ou escritora deixa de explorar ambiguidades morais ou conflitos internos, o que limita a complexidade de certos personagens e situações.
Em Star Wars essa divisão é feita entre os cavaleiros Jedi (o bem) e os Sith (o mal), ainda nos primeiros episódios de cada trilogia, episódio I e IV, e ajuda a introduzir o universo para o público e o que eles devem esperar das atitudes de cada um deles. Em Harry Potter, o bem eo mal também são visto com clareza, no entanto sua divisão “oficial” só acontece após o quarto livro da saga, Harry Potter e o Cálice de Fogo (2000), quando são introduzidos os Comensais da Morte (mal) e a Ordem da Fênix e a Armada de Dumbledore (bem) no quinto livro. Luke Skywalker e Harry Potter estão em um único lado dos extremos. Ainda que exista alguns momentos que os deixam em conflito e testam suas moralidades, por exemplo, quando o Luke descobre a verdade sobre o Darth Vader, ou quando o Harry tem pensamentos negativos devido a sua ligação com o Voldemort, nada os tira do “bom caminho”.
Ambos iniciam como mocinhos e permanecem assim até o final. Apesar da consistência deles, as duas sagas conseguem apresentar personagens complexos que transitam entre esses dois lados e tornam a narrativa mais interessante: Anakin Skywalker, em Star Wars, e Severo Snape em Harry Potter. Os dois possuem dualidades e conflitos internos que colocam suas moralidades em risco. Por conta dessa profundidade, eles acabam dividindo opiniões: enquanto alguns fãs os admiram profundamente e compreendem seus atos, outros têm dificuldade em aceitar ou justificar suas escolhas.
Algo interessante de se notar é que os dois são movidos pelo mesmo desejo (bastante egoísta, importante ressaltar) e é por causa dele que eles acabam “mudando de lado”. Anakin, com medo de que os seus pesadelos se tornem realidade e que sua esposa, Padmé Amidala, morra durante o parto, acaba aceitando a proposta do chanceler Palpatine (Darth Sidious) e pende para o lado “sombrio da Força”, tornando-se um sith (Darth Vader), com a promessa de que assim conseguiria salvar a vida de sua amada.
Com o Snape acontece o mesmo. Cronologicamente, ele inicia como um Comensal da Morte e entrega informações confidenciais (a respeito da profecia que cerca o Harry) ao Voldemort, com o objetivo de manter Lílian Potter, o amor da sua vida, viva. Quando ele percebe que não vai funcionar, recorre ao Dumbledore para pedir ajuda e com isso, acaba mudando de lado. Assim como o Anakin, Snape não tem compaixão pelas vidas que ele está pondo em risco ao tomar suas decisões, suas ações são egoístas e com o único objetivo de proteger uma pessoa, Lílian (no caso do Skywalker, a Padmé).

A virada de chave dos dois personagens, do Anakin, do bem para o mal. Do Snape, do mal para o bem, são essenciais para a tornar ambas narrativas envolventes e fora do comodismo. No entanto, é interessante observar como o fato de suas motivações estarem ligadas ao amor acaba gerando um efeito de empatia imediata em parte do público. Mesmo com atitudes questionáveis e decisões significativas consideradas “ruins” ou “maldosas”, elas muitas vezes são “perdoadas” ou relevadas pelos fãs, justamente porque vêm de um sentimento que costuma ser visto como algo bom: o amor. Esse tipo de construção é uma estratégia narrativa comum em ficções populares: ao apresentar personagens moralmente ambíguos que agem “por amor”, cria-se um vínculo emocional que torna os fãs apegados a personagens, algumas vezes até os considerando herois.
4. A caracterização do mau nos vilões Para encerrar essa análise/crítica comparativa, escolhi destrinchar um pouco a respeito dos vilões, Darth Vader e Lord Voldemort, e a maneira como o mau está caracterizado em suas aparências. Já parou para pensar que o Anakin Skywalker e Tom Riddle (antes de se tornarem Vader e Voldemort), eram homens bonitos e charmosos e que tiveram suas características físicas totalmente alteradas após se tornarem oficialmente os vilões?

Essa mudança está relacionada a essa transição do mocinho para o antagonista (ainda que o Tom Riddle nunca tenha estado no lado bom e que tenha cometido atrocidades desde novo, as pessoas ao redor não tinham consciência a respeito disso e não o enxergavam como vilão. No momento em que ele passa a se apresentar como Lorde Voldemort, sua aparência já passou por mudanças). Isso também pode ser enxergado como resultado de suas maldades: conforme eles vão cometendo mais atos crueis, suas aparências também vão se modificando, tornando-se mais deformadas, sombrias ou até inumanas, como se eles estivessem absorvendo, fisicamente, o reflexo de suas próprias ações.
Tanto o Darth Vader quanto o Voldemort desafiam a morte. No entanto, no universo de Star Wars, assim como no de Harry Potter, não há maneiras de se tornar imortal, ou seja, toda vez que eles tentam escapar da morte e buscam formas de prolongar a própria existência, acabam mexendo com forças que fogem do natural e portanto vão se distanciando do físico de humano que possuíam antes.
Considerações
É muito interessante pensar que não só Star Wars e Harry Potter, mas em várias outras histórias fictícias os escritores escolhem, de forma bastante estratégica, como vão conduzir suas narrativas para que elas sejam facilmente abraçadas pelo público. É perceptível que eles acabam recorrendo a estruturas já conhecidas, como se seguissem uma receita de sucesso, repetindo certos padrões, temas e trajetórias de personagens que já funcionaram antes.
Os pontos que destaquei ao longo do texto, podem ser facilmente percebidos em muitas outras obras de ficção e fantasia, o que mostra como esses elementos se tornaram quase universais dentro do gênero.

Aqui encerro esta análise/comparação crítica que me diverti muito escrevendo, já que as duas sagas estão entre as minhas favoritas! Aproveito para te convidar para conferir as recomendações e jogos presentes no Mnemósine!




Gostei do estilo de análise crítica estrutural que a autora colocou no texto. Esse tipo de abordagem é muito interessante porque mostra ao leitor o que muitas vezes passar de maneira imperceptível, já que normalmente o leitor ou espectador comum se atém muito mais aos temas e personagens, sem observar certos padrões narrativos e psicológicos que se repetem nas mais diversas narrativas. Ótima contribuição crítica!