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Não é tarde para Jeff Buckley. Depois de quase 30 anos sua voz ainda ecoa

  • Foto do escritor: Mnemósine
    Mnemósine
  • 15 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Por Laura Rocha



A internet permite um fenômeno muito interessante que é um dos meus favoritos: o resgate de músicas e obras de outras décadas. Isso faz com que muitos artistas ganhem reconhecimento, muitas vezes até mais do que tiveram em sua época. Foi dessa forma que eu encontrei um artista que, em pouco tempo, já me roubou tanta atenção. Muitos anos nos distanciam, mas não é tarde para Jeff Buckley.

“When all of this music sounds like you know what you want to say, then it will have been of all worth, ever” (Quando toda essa música soar como se você soubesse o que quer dizer, então tudo terá valido à pena, sempre). A frase escrita por Jeff Buckley em um de seus diários, lançados como livro em 2019, resume bem o seu interesse como compositor e cantor em criar músicas que toquem o seu público.



Nascido em 17 de novembro de 1966, em Anaheim, Califórnia, nos Estados Unidos, Jeffrey Scott Buckley foi um dos mais promissores artistas da década de 1990 e tomou referências de estrelas da música como Led Zeppelin, Edith Piaf, Nina Simone e muitos outros. Infelizmente, Jeff teve uma carreira precoce, mas deixou um legado na música que permanecerá vivo para sempre.


Buckley iniciou sua carreira cedo, ganhou sua primeira guitarra de sua mãe aos treze anos e criou uma banda de jazz com os colegas no ensino médio. Como podemos ler nas suas próprias palavras em Jeff Buckley: His Own Voice (livro que reúne os escritos de seus diários), a música sempre esteve presente em sua vida: “Music is my life and it always has been since I was born. Music is what i’ll have as my strength and my fuel to go on and my reason to live. Nothing else exists” (A música é a minha vida e sempre foi desde que nasci. A música é a minha força, o meu combustível para seguir em frente e minha razão para viver. Nada mais existe”.


Com seus diários podemos confirmar algo que já notamos em suas composições, que a sua relação com a música sempre foi íntima, sincera e crua. Jeff nunca teve medo de escrever os seus sentimentos mais profundos e de se mostrar vulnerável em suas letras. É por isso que o considero um dos maiores artistas de sua época e essa é também a razão pela qual sua voz ecoa até hoje. Mesmo com letras tão pessoais, Buckley consegue ser um artista que causa reconhecimento em seu público.


Trecho de um dos diários de Jeff Buckley, publicado no livro "Jeff Buckley: His Own Voice" em 2019
Trecho de um dos diários de Jeff Buckley, publicado no livro "Jeff Buckley: His Own Voice" em 2019

Seu nome começou a ressoar no mundo da música a partir de 1991, aos 24 anos, quando cantou no tributo de seu pai, Tim Buckley, cantor americano conhecido na década de 1970. O evento foi reservado e a apresentação considerada emocionante. No entanto, a relação de pai e filho sempre foi conflituosa. Jeff foi abandonado pelo pai e não teve contato com ele até os oito anos de idade, dois meses antes de Tim Buckley falecer. A ausência do pai é algo presente em sua música. Na faixa “Dream Brother”, do álbum “Grace” (1994), Jeff escreve sobre o amigo que vai se tornar pai e relaciona isso com a sua vivência. No refrão ele canta:


Don't be like the one who made me so old

Don't be like the one who left behind his name

‘Cause they’re waiting for you like I waited for mine

And nobody ever came

(Não seja como aquele que me fez tão velho

Não seja como aquele que deixou para trás o seu nome

Porque eles estão esperando por você, assim como eu esperei pelo meu

E ninguém nunca veio)


A música tem um tom melancólico e a brilhante voz de Jeff é carregada de uma tristeza e súplica angustiante. Apesar dos 5 min e 30s de duração, a letra é curta e dá espaço para a bateria e a guitarra que vão crescendo até explodir no refrão onde ele derrama seus traumas e aconselha o seu amigo. Para mim, “Dream Brother” é uma de suas melhores canções, mas infelizmente não tão conhecida.


Jeff Buckley se apresentando no tributo de seu pai, Tim Buckley, em 26 de abril de 1991, no Brooklyn, Nova York
Jeff Buckley se apresentando no tributo de seu pai, Tim Buckley, em 26 de abril de 1991, no Brooklyn, Nova York

Como mencionei anteriormente, Jeff Buckley teve sua carreira encerrada precocemente, então ele lançou apenas um álbum em vida, o prestigiado “Grace” (1994), considerado pela revista Rolling Stone um dos melhores álbuns de todos os tempos (#147 de #500). O lançamento, na época, incluía sete músicas e três covers, entre eles, a sua versão de “Hallelujah” que se destaca até hoje devido a sua impressionante e irresistível voz.


A faixa “Forget Her”, inicialmente gravada em 1993, foi incluída no álbum apenas em 2004, em comemoração ao aniversário de dez anos do “Grace”. Ela é, sem sombra de dúvidas, a minha música favorita dele. A composição é bizarra e muito singular e me deixa em êxtase a cada vez que ouço:


Her love is a rose pale and dying

Dropping her petals in land unknown

All full of wine, the world before her

Was sober with no place to go

(O amor dela é uma rosa pálida e moribunda

Deixando cair suas pétalas em uma terra desconhecida

Em meio ao vinho, o mundo diante dela

Estava sóbrio, sem ter para onde ir)


Há muitas teorias sobre para quem Jeff estava escrevendo essa música, mas ele foi extremamente delicado, particular e preciso ao descrever uma situação tão pessoal. É perceptível como o eu lírico está fragilizado por ter sido deixado, ainda sim ele busca maneiras de justificar as ações de quem o deixou: Don't fool yourself / She was heartache from the moment that you met her (Mas não se engane / Ela era tristeza desde o momento em que você a conheceu). Ao mesmo tempo, ele se contradiz e repete várias que precisa esquecê-la, deixando a narrativa mais interessante e humana.


O ápice para mim é a ponte, onde Jeff não economiza palavras e voz e despeja tudo o que sente em um grande desabafo:


Well, my tears falling down as I try to forget

Her love was a joke from the day that we met

All of the words, all of her men

All of my pain when I think back to when

Remember her hair as it shone in the Sun

The smell of the bed when I knew what she'd done

Tell yourself over and over you won' bbb t ever need her again

(Bem, minhas lágrimas caem enquanto eu tento esquecer

O amor dela foi uma farsa desde o dia em que nos conhecemos

Todas as palavras, todos os homens dela

Toda a minha dor quando eu me lembro do passado

Lembro do cabelo dela brilhando ao sol

Do cheiro da cama quando eu soube o que ela fez

Diga a si mesmo, repetidamente, que nunca mais vai precisar dela)


Já disse isso, mas vale repetir: Buckley não tinha medo quanto a parecer vulnerável em suas letras e isso me encanta muito. A sua relação com a arte era muito bonita e honesta, é possível confirmar isso quando assistimos às suas entrevistas e documentários. Certa vez ele disse “Music needs time to live in and sometimes that time is a memory, a childhood memory or a really dramatic memory of a fight, a loss, a death, a birth, a movie, something totally ordinary – if a song captures it, those are the things that keep time in your life” (A música precisa de tempo para viver e, às vezes, esse tempo é uma memória, uma memória de infância ou uma memória realmente dramática de uma luta, uma perda, uma morte, um nascimento, um filme, algo totalmente comum - se uma música a captura, essas são as coisas que mantêm o tempo em sua vida).


Mas claro, não dá para falar de Jeff Buckley e não citar sua música de maior sucesso hoje em dia, a que viralizou nas redes sociais nos últimos anos e a que me fez conhecê-lo “Lover, You Should’ve Come Over”. Essa música não é famosa à toa. Ela possui uma letra brilhante, arrisco dizer que é a melhor da sua carreira. A letra traz um Jeff admitindo que cometeu erros que o fez perder a sua paixão; ele se assume imaturo e canta que deseja tê-la de volta. É com esse sentimento de arrependimento que ele compõe a sua letra mais elegante:


It's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder

It's never over, all my riches for her smiles when I slept so soft against her

It's never over, all my blood for the sweetness of her laughter

It's never over, she's the tear that hangs inside my soul forever

(Isso nunca acaba

Eu daria meu reino por um beijo no ombro dela

Isso nunca acaba

Todas as minhas riquezas pelos sorrisos dela

Quando eu dormi tão suavemente contra ela

Isso nunca acaba

Todo o meu sangue pela doçura da risada dela

Isso nunca acaba

Ela é a lágrima que escorre dentro da minha alma para sempre)


Uma parte da letra de "Lover, You Should've Come Over" escrita em um dos diários de Jeff Buckley, que foi incluído no livro "Jeff Buckley: His Own Voice" (2019)
Uma parte da letra de "Lover, You Should've Come Over" escrita em um dos diários de Jeff Buckley, que foi incluído no livro "Jeff Buckley: His Own Voice" (2019)

Essa música, graças à internet, tornou-se um sucesso nas redes sociais e tem mantido o nome e a voz de Jeff vivos mesmo após quase 30 anos. Há ainda o novo documentário “It’s Never Over, Jeff Buckley”, dirigido por Amy Berg e lançado em agosto de 2025, que traz arquivos pessoais e pessoas próximas ao cantor (sua mãe, ex namoradas e amigos) para oferecer uma visão mais intimista de sua vida (Recomendo muito para quem desejar conhecê-lo mais a fundo).


Jeff Buckley estava para gravar o seu segundo álbum de estúdio quando faleceu em 1997, aos 30 anos de idade. Em 1998 foi lançado o que seria o sucessor de “Grace”, o “Sketches for My Sweetheart The Drunk” (Ele já tinha revelado que pretendia nomeá-lo de My Sweetheart The Drunk) álbum duplo póstumo que reúne demos caseiras e poucas gravações de estúdio de músicas nunca lançadas antes. Entre elas, se destaca a maravilhosa “Everybody Here Wants You” que possui uma letra linda e repercutiu muito.



Em 1995, em entrevista para MTV Europa, Jeff Buckley foi questionado sobre como gostaria de ser lembrado. Sua resposta foi “Eu não preciso ser lembrado, espero que a música seja”. Mas ele foi, e é até os dias de hoje.


 
 
 

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