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Por que filmes como Clube da Luta são canonizados, enquanto rom-coms como De repente 30 viram alvo de chacota?

  • Foto do escritor: Mnemósine
    Mnemósine
  • 30 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Por Monique Luna


Por pura nostalgia, revi recentemente De repente 30. Dirigido por Gary Winick, o filme é um daqueles clássicos da Sessão da Tarde. Foi a partir disso que meu algoritmo sugeriu uma lista de filmes guilty pleasures (em tradução livre, “prazeres culposos”, aquelas coisas que você gosta, mas tem vergonha de externalizar na frente de outras pessoas).


De repente 30 (2004)
De repente 30 (2004)

Ao mesmo tempo, tenho esbarrado com frequência na internet com os típicos grupinhos red pill – expressão da qual que grupos de homens se apropriaram, uma vez que, acreditam que a sociedade é de alguma forma mais benéfica para as mulheres, e que os homens seriam, na verdade, os oprimidos. No entanto, o termo inicialmente foi inspirado no filme Matrix, em que o protagonista precisa escolher entre tomar a pílula vermelha, para “sair da Matrix” e enxergar a realidade, ou a pílula azul, com a qual ele permaneceria na simulação de uma vida perfeita, ainda que ilusória.


Baseado no livro homônimo, Clube da Luta é uma história sobre masculinidade tóxica e uma crítica ao consumismo excessivo, além de ter sido escrita por um autor LGBTQIAPN+. Na adaptação, o personagem Tyler Durden fala sobre como a sociedade é um fracasso e como os homens precisam “recuperar” sua masculinidade, e, para isso, a solução seria o clube da luta. Essa é, claro, uma leitura superficial, mas é exatamente assim que os red pills o enxergam.
Baseado no livro homônimo, Clube da Luta é uma história sobre masculinidade tóxica e uma crítica ao consumismo excessivo, além de ter sido escrita por um autor LGBTQIAPN+. Na adaptação, o personagem Tyler Durden fala sobre como a sociedade é um fracasso e como os homens precisam “recuperar” sua masculinidade, e, para isso, a solução seria o clube da luta. Essa é, claro, uma leitura superficial, mas é exatamente assim que os red pills o enxergam.


Hoje em dia, os grupos que se apossaram dessa expressão seguem a lógica de que a mulher é inferior e de que os homens devem “retomar” seu lugar de dominação na sociedade, sempre exaltando, como referência, filmes considerados “masculinos”, como Matrix (1999) dirigido pelas irmãs Lana e Lily Wachowski; Psicopata Americano (2000) dirigido por Mary Harron; e Clube da Luta (1999) dirigido por David Fincher, sendo esse último um dos focos da análise.


Psicopata americano (2000)     Clube da luta (1999)
Psicopata americano (2000) Clube da luta (1999)

Baseado no livro homônimo, Clube da Luta é uma história sobre masculinidade tóxica e uma crítica ao consumismo excessivo, além de ter sido escrita por um autor LGBTQIAPN+. Na adaptação, o personagem Tyler Durden fala sobre como a sociedade é um fracasso e como os homens precisam “recuperar” sua masculinidade, e, para isso, a solução seria o clube da luta. Essa é, claro, uma leitura superficial, mas é exatamente assim que os red pills o enxergam.

Demorei para assistir Clube da Luta por um tipo de “medo”, afinal, que tipo de filme seria esse, já que é exaltado por pessoas com o tipo de pensamento que os red pills têm? Mas, por outro lado, a curiosidade, por ser um filme tão falado e bem avaliado (com mais de 80% de aprovação no Rotten Tomatoes e avaliado com 8,8/10 estrelas no IMDB), me fez assistir. E eu odiei, na primeira vez que vi, mas ainda assim, me convenci a rever.


Na segunda tentativa, ainda que eu não goste de alguns elementos (especialmente o final, que sugere que o caminho da destruição é necessário para a evolução), percebi que o mesmo grupo que exalta o filme por supostamente representar uma “masculinidade oprimida” é justamente o que o distorce completamente. O filme, na verdade, aborda o oposto, já que mostra o vazio dessa busca por uma virilidade idealizada. Mesmo assim, esses grupos veem Tyler como um modelo a ser seguido, ignorando completamente o fato dele ser um lunático que aliena outros homens inseguros.


Essa diferença na recepção não é exclusiva dos filmes “sobre homens”. Quando a crise, a raiva e o colapso partem de personagens femininas, o olhar crítico muda completamente. Nos últimos anos, a chamada estética da female rage (ou raiva feminina em tradução livre, se refere à raiva sentida por mulheres diante de violencias como um todo) tem ganhado força em filmes como Cisne Negro (2010), Garota Exemplar (2014) e Pearl (2022). Essas obras exploram o colapso, a solidão e a raiva feminina, funcionando quase com o mesmo intuito do que é mostrado nas narrativas “masculinas” de crise e violência existencial, com as vimos, por exemplo, em Taxi Driver (1976) ou Clube da Luta. Ainda assim, mesmo tratando de temas semelhantes (frustração, identidade, repressão) esses filmes não recebem o mesmo reconhecimento “sério” ou “filosófico”, sendo muitas vezes reduzidos a dramas de histeria ou loucura.


Cisne Negro (2010)       Garota Exemplar (2014)             Pearl (2022)
Cisne Negro (2010) Garota Exemplar (2014) Pearl (2022)

Apesar de muitos desses filmes representarem a female rage por meio do exagero, do grito e do descontrole, há quem questione se essas narrativas realmente partem de um olhar feminino. Em um vídeo no TikTok, publicado pelo perfil @diana_eleuterio, a criadora comenta justamente esse debate sobre a existência (ou não) de um ponto de vista feminino no cinema e cita o filme Observador (2022) como exemplo. Segundo ela, a cena que mais traduz a raiva feminina é aquela em que a protagonista é descredibilizada pelo próprio marido: ela não grita, não reage de forma violenta, mas sua raiva se manifesta na postura, no olhar e no modo contido de falar.

Comentário feito em um vídeo no TikTok no perfil @diana_eleuterio
Comentário feito em um vídeo no TikTok no perfil @diana_eleuterio

Entendo que existem categorias diferentes de filmes, e que nem todos precisam ser dignos de prêmios. Mas por que filmes como Clube da Luta (seguindo a interpretação dos grupos já citados) são considerados o suprassumo do cult, enquanto rom-coms e filmes com o mesmo intuito de Clube da Luta, de um ponto de vista feminino, faz as pessoas sentirem vergonha de admitir que gostam?


Voltando ao filme em De Repente 30, acompanhamos a história de uma garota de 13 anos que, por um tipo de “magia”, viaja 17 anos no futuro até os 30, “a idade do sucesso”, como é repetido diversas vezes até o momento em que ela é transportada. No entanto, apesar de viver o conto de fadas da vida adulta, ela descobre que, ao avançar no tempo, perdeu pessoas e momentos importantes em sua vida. E é aqui que chego em De Repente 30: vemos, no formato da história, como a sociedade espera esse amadurecimento precoce das meninas. O desejo da protagonista em crescer rapidamente não é exatamente natural (embora muitas mulheres sintam também), mas é na verdade o reflexo de um ideal de feminilidade que a sociedade impõe em torno das mulheres.


Em Clube da Luta, podemos observar algo semelhante, mas do outro lado do espelho. A sociedade impõe aos homens o ideal da virilidade absoluta, o homem que não sente, que domina, que precisa provar constantemente sua força. O protagonista, ao criar Tyler Durden, imprime justamente essa imagem: um ideal masculino impossível, construído sobre a repressão de qualquer traço de fragilidade. O que o filme mostra, no fim, é que essa tentativa de “recuperar a masculinidade” leva à autodestruição, não à liberdade.


Reconheço que partem de propostas diferentes, mas por que só De Repente 30 é tratado como mero entretenimento, bobo, e até mesmo um prazer culposo? Uma vez que, ambos os filmes lidam com narrativas complexas sobre gênero e crescimento pessoal? O problema, no fim das contas, é ser mulher e se identificar com algo, porque tudo o que vem do chamado “universo feminino” é automaticamente considerado frágil, menor e irrelevante. Seja ser fã de um (a) artista que é popular entre meninas, ou colecionar photocards (ou qualquer coleção que não seja de time de futebol ou super heróis. Aliás, mesmo se uma menina colecionar essas coisas, ela ainda vai ser descredibilizada se realmente conhece aquilo mesmo, porque como já dito o “problema” é ser mulher), que é visto como um desperdício de dinheiro, mas se um homem colecionar figurinha da copa é o suprassumo do colecionismo.


No fim, o que a gente chama de “prazer culposo” talvez seja só um reflexo de como o gosto das mulheres é sistematicamente desvalorizado, já que tudo o que é “feminino” é visto como superficial. Enquanto isso, o sofrimento e a violência dos homens são vistos como profundos, filosóficos, dignos de culto. De Repente 30 e Clube da Luta falam, cada um da sua maneira, sobre pessoas tentando sobreviver às expectativas de gênero, mas, apenas um deles é permitido ser levado a sério.



 
 
 

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