O mundo é deles, não nosso: uma análise do filme Não Se Preocupe, Querida
- Mnemósine

- 30 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Por Júlia
- De quem é este mundo? Nosso!
A frase dita em uníssono pelos homens durante uma cena do filme Não Se Preocupe, Querida (2022) dirigido pela Olivia Wilde, mostra o que estamos acostumadas, enquanto mulheres, a ouvir e sentir na pele desde sempre: o mundo é deles, não nosso.
O longa nos apresenta uma comunidade experimental criada e liderada por Frank; nela moram diversos casais que vivem o estilo de vida americano (american way of life) dos anos 1950. O casal protagonista Jack e Alice Chambers, interpretados por Harry Styles e Florence Pugh, são o retrato perfeito de uma vida idealizada: uma dona de casa bonita e feliz casada com um homem que a sustenta. No entanto, no decorrer da trama, Alice nota situações estranhas que abalam a “vida perfeita” que eles levavam.

O filme, embora com alguns tropeços e cenas ruins (a dança interminável do Jack, por exemplo), chama atenção para um movimento importante que deu os primeiros passos dois anos antes do seu lançamento: as trad wifes, em português “esposa tradicional”. Representado pela Alice na primeira parte do longa, as trad wifes são mulheres donas de casa sempre arrumadas, mesmo durante uma faxina, que esperam seu marido com a casa limpa e comida pronta. Além disso, retomam os ideais propagados pelos anos 1950, tempo considerado por elas como mais simples e felizes.

Nas redes sociais, essas mulheres compartilham sua rotina de donas de casa e boa esposa, chegando a alcançar a marca de cerca de 70 mil resultados na busca “#tradwife” somente no Instagram (G1, 2024). Alguns exemplos de mulheres que se propagam como trad wife são: Nara Smith, Hannah Neilman (Ballerina Farm) e a brasileira Luiza Maciel, que parecem viver na comunidade experimental criada por Frank. Elas existem apenas para satisfazer seus maridos e se orgulham disso.

Várias cenas do filme me fizeram recordar desse movimento. Uma delas, foi a que retrata a motivação que levou Frank a criar a comunidade: fugir do mundo caótico e inseguro da modernidade. Segundo ele, o mundo moderno impede que o ser humano (homem) alcance sua melhor versão. Enquanto isso, na “vida real”, a influenciadora Luiza Maciel diz que a escolha de ser uma esposa tradicional é uma resposta à sobrecarga contemporânea de “ter tudo”, como carreira, filhos e sucesso. Para mulheres, essa pressão vem em dobro, pois além de precisar exercer o trabalho doméstico, ainda é preciso conciliar com a carreira externa.
O enfrentamento dos problemas contemporâneos parece criar uma ilusão de que tempos que só vivemos e escutamos através de histórias são os melhores. A melancolia de um tempo passado, tempo esse que nunca existiu, clama por uma volta, em que “a música era melhor”, “a juventude era melhor”, “o casamento, a vida… era melhor”. Porém, há um risco muito grande em idealizar o passado, em especial porque historicamente as mulheres tiveram seus direitos negligenciados e negados. Décadas passadas, por exemplo, a “família margarina” era o padrão vendido pelas grandes indústrias, mas segundo a historiadora Stephanie Coontz, em seu livro “For Better and Worse: The Problematic Past and Uncertain Future of Marriage (2024), afirma que mesmo entre as famílias que permaneceram unidas, algumas donas de casa abusavam de álcool e tranquilizantes. Coontz, ainda revela que, em média, elas tinham menos tempo de lazer e de interação com seus filhos em comparação com as mulheres empregadas hoje.
Nessa perspectiva, há uma passagem de um filósofo conservador Roger Scruton, que explica esse sentimento melancólico, fundamental no pensamento da direita:
contamos histórias reconfortantes sobre a inocência dos tempos idos e acalentamos a ambição de agarramo-nos ao passado. Mas a um passado adulterado, cujas partes ameaçadoras foram cuidadosamente extirpadas. Depois, ao despertarmos, lamentamos a perda de um sonho (Scruton, 2014)
No filme, podemos ver essa dualidade entre pressão contemporânea e a idealização de um passado pela revelação final de como funciona o experimento de Frank. Essa comunidade, na verdade, é uma simulação controlada por cada marido que contrata o Projeto Victory, na qual, por meio de um “óculos” de realidade virtual, simula-se, a cidade onde os casais vivem. Jack, decide participar dessa simulação, pois na sua vida real tinha perdido o emprego e era sustentado por Alice, que precisava trabalhar o dobro para pagar as contas da casa. Ao escolher participar dessa sociedade, mesmo que sua esposa não saiba, Jack assumiria o papel que lhe é devido: ser o provedor e o único capaz de decidir tudo. Isso me fez questionar quantos homens não escolheriam participar desse experimento ao invés de aceitar que mulheres possam ser independentes e provedoras do lar?
Confesso que o longa dirigido por Wilde não é uma das melhores produções sobre o tema, já que a série baseada no livro de mesmo nome O Conto da Aia (2017) tem uma melhor construção de narrativa. Ainda assim, a grande atuação da Florence Pugh e a representação de como seria ser uma trad wife e suas consequências conseguiu despertar um interesse. A cena em que Alice grita para seu marido que ele não tinha o direito de roubar sua vida (It was my life, my life, you don’t get to take that from me!) ficou bastante marcada em mim, tanto porque foi uma cena forte, mas também porque me lembra de que nós enquanto mulheres ainda precisamos lutar todos os dias para não termos nossas vidas roubadas, silenciadas e violentadas. Afinal, somos lembradas desde sempre que o mundo é deles, não nosso.




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