O Ideal de Contemplação no Cinema: Uma análise de filmes japoneses
- Mnemósine

- 7 de abr. de 2025
- 6 min de leitura
Por Monique
Filmes com um ritmo mais calmo, ou simplesmente menos acelerado do que os que costumam ser os que nos acompanham ao longo da vida, são como um suspiro de alívio em resposta ao ritmo acelerado do mundo contemporâneo. Chamado por alguns de comfort movies (em tradução livre, “filmes de conforto”), no cinema, esses filmes que carregam certa contemplação, normalmente são aqueles que tem o tempo como “mais lento”, enfatizando o cotidiano e com uma narração em favor de uma escuta mais sensível do mundo.
Em especial, nesta análise, decidi me dedicar a quatro filmes do cinema japonês, um campo que considero particularmente fértil para essa abordagem. As obras escolhidas foram: Whispers of the Heart (1995), ou em tradução Sussurros do Coração; One Million Yen Girl (2008), em tradução A Garota de Um Milhão de Ienes; Perfect Days (2023), chegando ao Brasil com o nome Dias Perfeitos, e The Travelling Cat Chronicles (2018), que nunca chegou aos cinemas ou mesmo streamings brasileiros.

Sussurros do Coração (1995), é uma animação do Studio Ghibli, dirigido por Yoshifumi Kondô e roteirizado por Hayao Miyazaki. A história acompanha Shizuku, uma adolescente que está prestes a entrar no ensino médio, apaixonada por livros, que passa seus dias lendo os livros da biblioteca da sua escola e tentando entender o que fazer/ser no seu futuro. Durante as férias, Shizuku decide que irá ler 20 livros, mas percebe um detalhe, todos os livros que lê já foram lidos por um mesmo garoto antes dela. Curiosa para descobrir quem ele é, ela acaba conhecendo Seiji, um aspirante a construtor de violinos, e, a partir disso, começa uma jornada de autoconhecimento e descoberta de sua paixão pela escrita.
O filme adota um ritmo calmo, onde cada elemento visual, desde a luz atravessando as janelas até os cenários urbanos desenhados com riqueza de detalhes, convida à observação minuciosa. Além disso, os momentos de insegurança e confusão, não só da protagonista, já que os dois estão tentando encontrar seus lugares no mundo, são relacionáveis. Isso vale tanto para espectadores que estão passando pela mesmo mudança que Shizumi (saída do ensino fundamental e entrada no ensino médio, que consequentemente significa mais responsabilidade), quanto para aqueles que trabalham com arte ou almejam isso, uma vez que a personagem tem o desejo de trabalhar com sua escrita, algo que sua família não compreende muito bem. O filme, no entanto, permite que a audiência respire com a personagem, com o uso do silêncio e da trilha sonora suave, sendo interpretada por Yuji Nomi. Take Me Home, Country Roads (uma das músicas), por exemplo, atua como uma extensão do mundo de Shizuku, às vezes leve, às vezes melancólica, mas sempre sincera. Esse cuidado na construção da atmosfera do filme, que não tem medo de parecer “parado” ou “lento”, é especial, pois demonstra que, mesmo em um ritmo desacelerado, é possível reencontrar algo de nós mesmos que o cotidiano corrido tende a apagar.

One Million Yen Girl (2008), dirigido e roteirizado por Yuki Tanada, acompanha a história de Suzuko, uma jovem que, após um episódio traumático com um gato que resulta em antecedentes criminais, decide recomeçar a vida longe de casa. Seu plano é simples: trabalhar até juntar um milhão de ienes (hoje em dia equivalente a 40 mil reais) e então se mudar para outra cidade, um ciclo que se repete como forma de evitar raízes e confrontos com o passado. Em uma de suas paradas, ela trabalha em uma loja de jardinagem e conhece Ryohei, um estudante universitário com quem acaba se envolvendo. O relacionamento apesar de parecer sincero no início, começam a surgir desentendimentos quando ele começa a pedir dinheiro emprestado, o que faz Suzuko questionar as intenções dele e suas próprias decisões. Ela de fato está certa, pois descobre posteriormente que ele só se aproximou dela devido ao dinheiro que ela guardava. O longa-metragem não segue uma narrativa com desenvolvimento linear, mas apresenta uma estrutura circular, marcada pela repetição de ciclos: trabalhar, juntar dinheiro e ir embora.
A cada cidade que a protagonista passa são trazidas novas paisagens e novas rotinas que, ao invés de acelerarem a trama, abrem espaço para a contemplação das pequenas relações humanas, tanto por Suzuko quanto pelo espectador. No filme não há grandes reviravoltas, pelo contrário, é nos gestos simples que a história se desenrola, como andar de bicicleta, ou simplesmente a protagonista expressando sua opinião, além das constantes mudanças dela não precisarem de clímax. A câmera fixa e os planos longos enfatizam a sensação de permanência, mesmo no deslocamento, e a solidão de Suzuko não é problematizada ou mesmo vista como tristeza, mas como uma escolha de liberdade. Por fim, vale ressaltar a escolha perfeita do final, no qual Ryohei, arrependido de tê-la explorado financeiramente, vai pedir desculpa quando ela está prestes a se mudar novamente, pedindo que ela fique. Como espectadora, fiquei apreensiva de que o desfecho pudesse cair no clichê da redenção amorosa, o típico "o amor vence tudo", mesmo quando claramente ele quase a impediu de alcançar seu objetivo. Mas o que o filme entrega é uma recusa dessa lógica. Suzuko escolhe seguir em frente, fiel ao que sempre foi seu objetivo, ser uma jovem tentando encontrar seu lugar no mundo sem precisar que ninguém a salve no meio do caminho, se tornando um final honesto, sensível e profundamente libertador.

The Travelling Cat Chronicles (2018) é um filme baseado no livro Relatos de um Gato Viajante, de Hiro Arikawa, dirigido por Kôichirô Miki. A história acompanha Satoru e seu gato Nana em uma viagem pelo Japão, em busca de um novo tutor para o animal. O motivo para a “doação” do gato é desconhecido inicialmente, mas ao decorrer da viagem ele vai se revelando em meio aos detalhes sutis. No entanto, o filme não foca unicamente nessa revelação, mas especialmente nas paradas feitas, pois cada parada é uma visita a amigos do passado, sendo um reencontro e uma despedida.
A narrativa intercala entre presente e memórias do passado, utilizando o ponto de vista do gato para trazer as lembranças vividas pela dupla, Satoru e Nana. As paisagens naturais ganham destaque com enquadramentos abertos e momentos de silêncio que reforçam tanto os personagens quanto o espectador. O filme não tem o mesmo final que o livro, mas isso não faz diferença, pois cumpre o mesmo objetivo que é aceitar a finitude, amar sem posse e dizer adeus com delicadeza. Além disso, a montagem desacelerada e os momentos de observação fazem desse longa um convite ao choro sereno e escuta silenciosa.

Perfect Days (2023) é uma coprodução entre Alemanha e Japão, dirigido por Wim Wenders e com roteiro de Wenders e Takuma Takasaki. A ficção acompanha Hirayama, um homem que limpa banheiros públicos em Tóquio. A proposta do filme parece simples, afinal nele é registrada a rotina do protagonista com um olhar quase documental (o que não é de se espantar, afinal a ideia inicial era de fato fazer um documentário sobre a arquitetura dos banheiros públicos japoneses). Ele acorda, cuida das plantas, escuta música no caminho para o trabalho, come e trabalha. O filme é capaz de celebrar as pequenas ações do dia a dia, sejam as mais simples, como os momentos em que ele come um sanduíche todos os dias embaixo da sombra de algumas árvores no terreno de um santuário e tira fotos analógicas dos seus galhos e folhas, o Komorebi (é uma palavra que não existe tradução fixa para o portugues, mas que significa o momento que a luz e as sombras, dado em vista o vento, intervém no movimento das folhas) que nunca pode ser igual ao dia anterior.
A direção da trama opta por planos fixos e longos, que acompanham Hirayama sem pressa, permitindo que suas escolhas ganhem peso, como o modo que ele dobra a roupa ou escolhe uma fita cassete. Em Perfect Days, a cidade de Tóquio não é mostrada como caos que costuma ser apresentado em algumas outras obras, mas como fluxo. É um filme no qual o espectador é convidado a entrar na rotina contemplativa do personagem, e numa experiência que resume todos os filmes mencionados aqui, fazem o espectador querer encontrar esse ponto de contemplação em meio a uma vida tão acelerada.
Através dos filmes analisados, eles se revelam não somente como um campo estético (apesar de ser muito importante para prender o espectador), mas também como narrativas nas quais o tempo não é um obstáculo, e grandes acontecimentos nem sempre são necessários para se viver. Os longas mencionados propõe um modo de estar no mundo que valoriza a escuta, os detalhes e o silêncio.




Gostei muito do tema escolhido e da forma de abordagem crítica. Como não conheço a maioria das obras, minha leitura fica um tanto limitada. Mas, em relação a Perfect Days, acho que você foi certeira ao tratar da proposta estética ligada a um ritmo da narrativa, à fotografia e ao modo contemplativo de existência estabelecido pelo protagonista. Belo texto.