Engajamento pela diversidade através do Queerbating
- Mnemósine

- 15 de jan.
- 7 min de leitura
Por Duda
A série Stranger Things, ao longo de suas temporadas, construiu uma narrativa marcada pelo uso recorrente de subtextos e ambiguidades, especialmente no que diz respeito à representação de personagens LGBTQIAPN+. Na temporada final, esse recurso tornou-se central nas discussões em torno da possível relação entre Will Byers e Mike Wheeler. Conhecido pela comunidade de fãs como Byler, o casal não canônico ganhou destaque em espaços como Tumblr e Reddit, sobretudo após a confirmação oficial de que Will é um personagem homossexual. A partir da análise de cenas, diálogos e escolhas narrativas que sugerem, sem afirmar explicitamente, a possibilidade de um envolvimento romântico entre os dois, o ship passou a ser interpretado como um exemplo relevante do uso de subtexto no audiovisual. Esse fenômeno evidencia como narrativas que evitam a explicitação podem mobilizar leituras diversas por parte do público e se tornar um ponto de partida para debates mais amplos sobre representatividade, queerbaiting e limites da sugestão narrativa no entretenimento contemporâneo.
O uso do subtexto como meio de interpretação não é uma criação da comunidade de fãs da série, mas sim de uma tradição histórica do audiovisual. Durante décadas, especialmente entre os anos 1930 e 1968, o cinema dos Estados Unidos esteve submetido ao Motion Picture Production Code, um conjunto rígido de normas morais que regulava o que podia ou não ser exibido nas telas. Entre as diversas proibições impostas pelo código estavam a nudez, a miscigenação racial e a “insinuação de perversões sexuais”, categoria sob a qual a homossexualidade era explicitamente incluída. Diante dessas restrições, a equipe dos filmes da época passaram a recorrer ao subtexto e às analogias visuais, narrativas e comportamentais como forma de contornar a censura e ainda assim comunicar identidades e desejos queer ao público. Rope, dirigido por Alfred Hitchcock, é um exemplo disso por tratar a relação entre os protagonistas masculinos por meio de dinâmicas que extrapolam os limites de uma amizade convencional, sendo amplamente reconhecida pela crítica como uma representação codificada de um relacionamento homoafetivo, viabilizada exclusivamente pelo uso do subtexto.
Diante disso, é possível notar que a equipe de marketing da série Stranger Things soube aproveitar a narrativa construída pelos fãs dentro das redes sociais, como postagens ambíguas no instagram da Netflix que sugeriam ao público que algo poderia acontecer entre os personagens. Era frequente que os posts retomassem essa leitura romântica em torno de Byler, enquanto infernizava o relacionamento de Eleven e Mike, mesmo que eles fossem o casal principal da narrativa. São exemplos as seguintes postagens:
Essa estratégia não é exclusiva de Stranger Things e se repete em outras produções da plataforma, como Wandinha. A história acompanha a vida da filha mais velha da família Addams, e também é um exemplo de outro casal queer non-canon amado pelo público, e frequentemente usado como estratégia de marketing nas redes sociais da Netflix para fomentar a obra original. Wenclair, formado por Wednesday Addams e Enid Sinclair, tem semelhanças com o que aconteceu com Byler. Prova disso é uma das divulgações da série que incluiu um evento offline intitulado WednesGAY (trocadilho com o nome da personagem + gay), insinuando que a protagonista poderia fazer parte da comunidade LGBTQIAPN+ (Imagem abaixo). Contudo, em nenhum momento a série confirma se a protagonista é, de fato, queer, deixando a representação sempre no campo da sugestão.
Essa prática é conhecida como queerbaiting: quando criadores insinuam romances ou identidades LGBTQIAPN+ sem jamais retratá-los de forma concreta na narrativa original daquele produto. O problema se intensifica quando observamos que, ao mesmo tempo em que a Netflix estimula o engajamento do público, em sua maioria queer, por meio dessas sugestões, a plataforma é conhecida por cancelar séries que apresentam representações canônicas desses relacionamentos.
Séries como Everything Sucks, que narra adolescentes dos anos 1990 produzindo um filme escolar; I Am Not Okay with This, sobre uma garota sáfica com poderes sobrenaturais; First Kill, centrada em um romance entre uma vampira e uma caçadora; e Warrior Nun, que também desenvolve uma narrativa sobre mulheres e elementos sobrenaturais e que, surpreendente, explora um vínculo romântico entre personagens femininas, compartilham mais do que apenas personagens LGBTQIAPN+: todas, sem exceção, foram canceladas.
É quase impossível não associar a plataforma de streaming ao uso de queerbaiting.
Ainda mais quando séries que tinham tudo para se encaminhar para um romance, de fato, queer, mudam totalmente a narrativa para outro plano. É o que acontece quando a protagonista em Xo, Kitty, que narra as vivências de uma adolescente se descobrindo na Coreia do Sul, finaliza a primeira temporada se apaixonando pela sua melhor amiga e a narrativa se encerra dando indícios de que o relacionamento entre as duas será aprofundado na próxima temporada. Contudo, desde o primeiro episódio da temporada seguinte, a história passa a introduzir ao público que Kitty terminará com um personagem masculino, indo contra a narrativa original que tinha sido criada. Ainda que essa decisão tenha frustrado parte do público, ela não surpreendeu muitos fãs da série, que já desconfiavam desse direcionamento, considerando o histórico da Netflix de desvalorizar e interromper o desenvolvimento de casais sáficos.
Dentro da plataforma, são poucos os casos de séries que que possuem um romance entre duas mulheres e são finalizadas. Never Have I Ever, Atypical e Heartstopper são os destaques nessa categoria. Além disso, também possuem outro elemento em comum: todos os casais sáficos, aqui, são o side couple. Ou seja, casais secundários que não recebem tanta atenção, uma vez que, não participam da trama principal. No próprio Stranger Things, a representação do único casal LGBTQIAPN+ da trama, Robin e Vickie, é limitada. Além de serem mostradas pouquíssimas cenas entre as personagens, seu desfecho também é incerto, já que Vickie simplesmente desaparece nos minutos finais do último episódio, e o roteiro não se preocupa em esclarecer se as duas permanecem juntas ou não. Assim, até em obras onde exista protagonismo sáfico, personagens da comunidade ainda são menosprezados.
Diante desse cenário recorrente de apagamento, torna-se difícil, e até um pouco injusto, responsabilizar o público por buscar representação onde ela não é oficialmente oferecida. Teorias e leituras alternativas de casais non-canon, como Byler, não surgem apenas do desejo de “forçar” uma narrativa inexistente, mas da ausência sistemática de histórias LGBTQIAPN+ que sejam bem desenvolvidas e centrais até o fim. Quando a indústria audiovisual insiste em sugerir possibilidades sem jamais concretizá-las, ela própria incentiva que os fãs preencham essas lacunas com interpretações.
Essa lacuna diz respeito, sobretudo, às produções audiovisuais ocidentais, que historicamente ofereceram pouco espaço para narrativas homossexuais tratadas com protagonismo e complexidade. Ainda assim, há exceções que se destacam justamente por romper com esse padrão. Obras como Heated Rivalry e Young Royals alcançaram grande popularidade ao apresentar relacionamentos homossexuais no centro da narrativa, desenvolvidos com seriedade emocional e continuidade, algo ainda raro nesse mercado. Em contraste, na Ásia existe um gênero consolidado voltado especificamente para esse tipo de representação, os BLs (Boys’ Love) e GLs (Girls’ Love). Nesses formatos, milhares de histórias exploram personagens queer como protagonistas em diferentes contextos, do ambiente escolar ao mercado de trabalho, passando por fantasia e ficção histórica, evidenciando que a demanda por essas narrativas sempre existiu, mas que parte significativa do audiovisual ocidental ainda reluta em abrir espaço para elas.
Ainda assim, é impossível ignorar uma contradição presente em parte do público ocidental: ao mesmo tempo em que há constantes pedidos por mais séries com protagonistas gays, muitas dessas pessoas fecham os olhos, de forma consciente ou não, para produções asiáticas que já oferecem exatamente esse tipo de enredo. Séries BLs e GLs, apesar de populares em seus países de origem e internacionalmente, são frequentemente tratadas como inferiores, o que evidencia o apagamento, ligado à xenofobia e ao racismo, que não acontece por acaso e coloca produções fora do eixo Estados Unidos-Europa como menos relevantes. Assim, enquanto se cobra representatividade das grandes plataformas ocidentais, desconsidera-se um vasto repertório de narrativas queer já existentes, apenas porque elas não se encaixam nos padrões culturais hegemônicos do ocidente.
Esse debate não é exclusivo do Ocidente. Em uma entrevista, ao ser questionada sobre a possibilidade de usar sua orientação sexual para promover produções GL, a atriz tailandesa Yada, que é lésbica, afirmou: “Jamais faria algo assim. Se um dia eu viesse a ter um namorado homem, isso significaria que eu estaria enganando as pessoas”. Yada também destacou que nunca mentiria sobre quem é apenas para divulgar um trabalho, reforçando que questões pessoais não devem ser instrumentalizadas como estratégia de marketing. A fala evidencia uma preocupação ética presente dentro da própria indústria asiática, na qual a representação queer é frequentemente tratada como uma responsabilidade simbólica, e não apenas como um produto ou tendência de mercado. Esse posicionamento contrasta diretamente com práticas que se beneficiam da sugestão sem compromisso, característica recorrente em grande parte das produções ocidentais.
Contudo, essa aparente preocupação história não apaga contradições estruturais. O Japão, por exemplo, é um dos maiores produtores de BLs e GLs do mundo, com uma indústria cultural extremamente prolífica nesse gênero, mas ainda não aprovou o casamento entre pessoas do mesmo gênero em nível nacional, revelando um abismo entre consumo cultural e reconhecimento de direitos humanos.
Nesse sentido, plataformas de streaming, como a Netflix, ocupam um papel central nesse processo de representação. Quando produções asiáticas com protagonistas queer são tratadas como nicho, enquanto séries ocidentais continuam sendo o principal parâmetro de debate sobre representatividade, cria-se um ambiente em que o público é constantemente direcionado a buscar identificação e validação dentro de um repertório limitado. Essa mediação influencia diretamente a maneira como o engajamento queer se manifesta, seja por meio do apoio a casais canônicos, seja pela insistência em leituras alternativas e teorias que tentam suprir aquilo que a narrativa oficial não entrega.
É a partir dessa lógica que se torna possível retornar ao caso de Stranger Things e ao ship Byler. A insistência do público nesse casal não surge como um delírio coletivo ou uma leitura descolada da obra, mas como consequência direta de um sistema que oferece subtexto sem resolução. Ao explorar o engajamento queer em suas estratégias de marketing, sem garantir representatividade concreta e duradoura dentro das narrativas, a Netflix transforma a diversidade em ferramenta promocional. Assim, Byler deixa de ser apenas um ship controverso e passa a simbolizar uma resposta coletiva à falta de histórias LGBTQIAPN+ centrais, respeitadas e concluídas. O queerbaiting, portanto, não se limita a uma prática isolada, mas revela uma estrutura que se alimenta da expectativa queer sem jamais se responsabilizar por ela.




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