“It’s Alive!”: Frankenstein e os monstros que criamos
- Mnemósine

- 7 de abr. de 2025
- 15 min de leitura
Por Eduarda
A criatura também sou eu
A primeira vez que li Frankenstein, fiquei confusa, encantada e, até mesmo, desconfortável e emotiva. Eu esperava uma história de horror com um monstro, sangue e mortes. Entretanto, o que encontrei foi solidão. Um tipo de dor que parecia não ser só da criatura — era minha também. A rejeição, o desejo de pertencer, a sensação de estar sempre fora de lugar. De alguma forma, eu me vi ali. E isso me assustou mais do que qualquer jumpscare de filme de terror.
Desde então, nunca mais consegui esquecer dessa história. Ela ficou grudada em mim e, dessa forma, comecei a perceber como o Frankenstein que conhecemos hoje — esse que aparece nos filmes, nas séries, nos desenhos — foi mudando com o tempo. E cada mudança dizia mais sobre quem contava a história do que sobre a própria criatura.
É por isso que escrevo essa análise. Não como especialista, mas como alguém que foi profundamente tocada por essa narrativa que se tornou hoje uma das minhas leituras favoritas da vida. Quero entender o que fizeram com ela. Quero pensar em como o cinema transformou essa história original em outras versões — algumas mais fiéis, outras completamente diferentes — e o que essas transformações dizem sobre a gente. Sobre o que tememos e sobre como lidamos com quem é diferente.
Desde sua publicação em 1818, o livro escrito em torno de uma brincadeira boba entre Shelley e seus amigos tem sido reinterpretado inúmeras vezes. Inspirada no mito de Prometeu, a obra aborda a ambição humana de ultrapassar limites naturais — uma metáfora que continua atual. A criatura de Frankenstein, ao longo das décadas, virou símbolo de outras dores: o medo da ciência, a exclusão social, o pavor diante do que não se compreende.
Como propõe Lefevere (2007), reescritas, como as adaptações cinematográficas, têm o poder de alcançar e moldar a percepção popular mais do que os textos originais. Assim como a criatura de Shelley escapa do controle de seu criador, os filmes escapam da obra literária e ganham vida própria.
Este texto convida a um passeio por algumas dessas adaptações, do cinema mudo às produções mais recentes, buscando compreender como Frankenstein foi se transformando com o tempo — e o que essas transformações dizem sobre nós.
1910 – Frankenstein (J. Searle Dawley)

A versão de 1910, para mim, é uma das mais intrigantes. Um curta mudo e teatral, com 13 minutos de duração, que quase foi perdido até ser redescoberto nos anos 1970 por um amante de cinema chamado Al Dettlaff, que vivia em Wisconsin, nos Estados Unidos. Dettflaff possuía a única cópia conhecida do curta-metragem e a manteve guardada por muitos anos, até que foi redescoberta nos anos 1970.
Aqui, a criatura surge de forma quase mágica, com efeitos visuais que, mesmo sendo feito a mais de 100 anos atrás, me brilharam os olhos. O monstro assombra Victor até desaparecer diante de um espelho nos minutos finais da obra audiovisual. No reflexo, aparece apenas Victor depois que a criatura some. Para mim, esse final sugere que a criatura não era real, mas uma projeção do lado sombrio do próprio Victor. Isso me marcou porque nunca tinha visto uma adaptação onde a criatura parecesse tão ligada à psicologia do criador.
Assistir ao curta foi como olhar para um espelho da virada do século XX. Dá pra sentir como o filme carrega as tensões daquele momento histórico, em que o avanço da ciência e da tecnologia gerava tanto deslumbramento quanto medo. O fato de ter sido produzido pelo Edison Studios — ligado diretamente a Thomas Edison, um dos grandes nomes da invenção — já diz muito. A criatura ali não é exatamente uma vítima, como no romance da Mary Shelley, mas sim uma espécie de punição moral ao cientista que ousa brincar de Deus.
O filme parece dialogar com o medo crescente da época em relação à ciência fora de controle. Um exemplo disso é o caso do médico italiano Cesare Lombroso, que, no final do século XIX e início do XX, defendia a ideia de que traços físicos determinavam tendências criminosas. A chamada “antropologia criminal” foi levada a sério durante um tempo, mostrando como a ciência podia ser usada para justificar ideias perigosas e deterministas. Assim, o cientista do filme de 1910, ao criar vida artificialmente, parece cruzar um limite ético — algo que causava desconforto num período em que a ciência começava a invadir territórios antes reservados à religião e à moral tradicional.
Percebo como isso reflete a mentalidade vitoriana da época, cheia de valores rígidos, e ao mesmo tempo a ansiedade em relação ao progresso acelerado. É curioso como, mesmo sendo um curta-metragem tão antigo, ele já carrega questões éticas que continuam ressoando hoje. Pra mim, esse filme não só inaugura o monstro no cinema, como também já demonstra perfeitamente o espírito inquieto de sua época e como isso vai refletir nas próximas adaptações.
1931 – Frankenstein (James Whale)

Já o clássico de 1931 traz uma leitura mais popular e direta, sendo uma experiência mais interessante do que eu esperava. Eu já havia tentado ver o longa anteriormente e desistido porque me senti entediada e frustrada por não ser fiel à obra original, mas agora, com outro olhar, percebi várias camadas que me chamaram atenção.
O filme começa de forma quase didática, com um homem se dirigindo diretamente à plateia, dizendo que a história é sobre um homem que tentou criar vida à sua imagem — sem Deus. O detalhe que ele não menciona (mas que salta aos meus olhos) é que ele também faz isso sem uma mulher. A ausência feminina no processo da criação é gritante, e me parece uma escolha simbólica. Victor Frankenstein tenta, literalmente, pular etapas naturais da vida, tomando para si um poder que, até então, era atribuído ao divino — ou, no mínimo, compartilhado entre dois sexos.
A história começa com Henry (Victor Frankenstein) e um ajudante corcunda assistindo a um funeral, para logo em seguida desenterrarem o cadáver — o que já estabelece o tom sombrio e transgressor do filme. O capacho de Henry também é o responsável por buscar o cérebro que será usado na criação. A cena em que ele pega o cérebro errado (o “anormal”) porque deixou cair o “normal” no chão é ao mesmo tempo cômica e simbólica. O professor de medicina explica que o cérebro anormal pertenceu a um criminoso que passou por muitos traumas. Isso já estabelece, de forma simplificada, a ideia de que o monstro será “mau” por natureza — algo que me incomoda, porque ignora toda a profundidade da criatura no livro.
Apesar disso, o filme de 1931 tem seus méritos. A narrativa é fluida, a ambientação gótica é esteticamente belíssima, e a atuação do Boris Karloff como a criatura é o ponto principal do sucesso do longa para mim. Ele transmite pânico, curiosidade e até certa inocência, mesmo sem dizer uma palavra. Aliás, essa ausência de falas é algo que, por um lado, torna a criatura mais misteriosa e talvez mais assustadora; por outro, impede que o público compreenda suas motivações com clareza. No livro, a criatura fala, argumenta, expressa dor, desejo, frustração — e isso é o que torna sua vingança compreensível, ainda que não justificável. No filme, tudo fica mais nebuloso. Por exemplo, ele mata Elizabeth, mas não sabemos exatamente por quê. E quando joga a garotinha no lago, parece mais um acidente do que maldade deliberada.
Curiosamente, Victor apresenta sua criação para uma pequena plateia, como acontece em The Rocky Horror Picture Show, um filme que em breve analisarei. A diferença é que, no longa de 1931, os espectadores duvidam da possibilidade da criação, enquanto em Rocky Horror todos estão empolgadíssimos. Esse contraste também mostra como o olhar da sociedade sobre a ciência muda com o tempo: da incredulidade para o espetáculo.
1975 – The Rocky Horror Picture Show (Jim Sharman)

A primeira vez que vi The Rocky Horror Picture Show, tive uma sensação estranha de familiaridade. Talvez porque o início da produção — com a música “Science Fiction/Double Feature” — é idêntico à abertura do episódio de Glee (2009), que assisti diversas vezes na infância, em que eles montam o musical. Ou talvez porque o próprio filme é referenciado em As Vantagens de Ser Invisível (2012), uma das histórias mais marcantes da minha pré-adolescência. De alguma forma, mesmo antes de assistir por completo, Rocky Horror já estava presente na minha memória cultural, apesar de não saber de fato sobre o que se tratava a história em si.
Conforme passava as cenas da produção, percebi que o filme é muito mais do que um musical excêntrico. Ele é o retrato de uma época — ou melhor, uma explosão estética e política nascida no calor da revolução sexual e da rebelião de Stonewall. Lançado em 1975, ele incorpora todo o espírito do glam rock, o período em que artistas como David Bowie desafiavam normas de gênero com maquiagem pesada e roupas ousadas. Nesse cenário, Rocky Horror não só escandaliza: ele provoca, ri das convenções e nos convida a fazer o mesmo.
Acredito que a forma como o filme se apropria da narrativa de Frankenstein foi o que me chamou a atenção aqui. O “Victor” aqui é Frank-N-Furter, um “travesti”, — como ele mesmo se define em uma das músicas — bissexual, extravagante e orgulhoso de sua criação. Ele não só exibe a criatura com entusiasmo como também a chama de seu “filho” diante de uma plateia de convidados. Ao contrário de Victor Frankenstein, que foge da criatura assim que ela ganha vida, Frank a apresenta ao mundo com orgulho, quase vaidade. E quando alguém ousa não se encantar por Rocky, como a personagem Janet que diz não gostar de homens musculosos, ele se ofende. Frank deixa claro que Rocky não foi feito para agradar ninguém, exceto ele mesmo. “Eu não o criei para você”, ele diz. Mas logo depois canta "I Can Make You a Man", reforçando um desejo de aperfeiçoamento da criatura, que remete diretamente à ambição de Victor no livro de Shelley: provar que pode vencer os limites da ciência e que pode, ele mesmo, ser um deus.
A criatura, nesse caso, tem nome: Rocky. É loiro, bronzeado, alto, com o corpo esculpido — tudo isso segundo o próprio Frank. Mas ao contrário da profundidade trágica da criatura original, Rocky aqui se encaixa no estereótipo muito específico: o “homem objeto”. Ele quase não fala, apenas canta em algumas músicas. Não sabe usar talheres, come com as mãos, age como se tivesse acabado de nascer — e, de certa forma, é isso mesmo. Mas o curioso é que ele lembra outro estereótipo comum nos filmes: o da loira burra que está ali só para ser bonita. Rocky é bonito, mas vazio, dependente e passivo, como se sua única função fosse existir para ser desejado.
É impossível não associá-lo à aquelas personagens femininas loiras que marcaram o cinema de comédia e os filmes adolescentes da época. Um dos exemplos que pensei foi Goldie Hawn em There’s a Girl in My Soup (1970) e Cactus Flower (1969). Goldie foi praticamente a personificação da “loira burrinha adorável” nesse período. Seus papéis eram sempre de garotas atrapalhadas, fofas, carismáticas, mas que raramente eram levadas a sério. Mesmo em filmes com um toque mais dramático, ela era tratada dessa forma — como um enfeite doce e descomplicado. Rocky parece ser uma inversão disso: o “goldie hawn masculino”, construído não para pensar ou agir, mas para brilhar aos olhos de quem o criou.
Como citado anteriormente, é inevitável não conectar o musical com a rebelião de Stonewall, em 1969, que marcou um divisor de águas na luta pelos direitos LGBTQIA+. Após uma batida policial violenta no bar Stonewall Inn, em Nova York, pessoas trans, drag queens, gays e lésbicas se rebelaram contra a violência sistemática que sofriam, dando início a dias de protestos nas ruas e ao nascimento de um movimento organizado por dignidade e liberdade sexual. Essa energia de resistência se espalhou ao longo da década de 1970, impulsionada também pela revolução sexual, que questionava os padrões conservadores sobre gênero, prazer e relações. O surgimento da pílula anticoncepcional, por exemplo, foi um marco importante para a autonomia das mulheres sobre seus corpos, enquanto publicações como a revista Playboy e o livro O Relatório Hite escancaravam o debate público sobre o sexo. Foi nesse período cultural — entre a libertação dos corpos e a politização da sexualidade — que obras como The Rocky Horror Picture Show emergiram, traduzindo em música, humor e escândalo o desejo coletivo de romper com tudo que oprimia.
O filme brinca com gêneros, inversões e exageros. Subverte, de forma ousada e debochada, tudo aquilo que esperamos de um “cientista”, de um “monstro”, de um “herói”. The Rocky Horror Picture Show pega a história clássica de Frankenstein e a passa por um filtro caos, se destacando em meio de tantas paródias mal executadas e desrespeitosas. E o resultado não é só divertido — é profundamente político. É uma crítica às normas, um grito pela liberdade dos corpos e das identidades, uma celebração do que é estranho e fora do padrão.
1984 – Frankenweenie (Tim Burton)

Escrito e dirigido por Tim Burton, a narrativa explorada em Frankenweenie me tocou pela amizade entre um menino e um cachorro. Com apenas 10 anos de idade, Victor reanima seu cachorro Sparky em um enredo que lembra o livro Cemitério escrito por Stephen King e publicado em 1983, mas também carrega temas de amizade e medo de perder quem se ama. O final do curta-metragem, mostrando a ressuscitação de Sparky pela segunda vez com a ajuda dos vizinhos, mostra um lado mais afetivo da história que até então não tinha sido abordado em outras adaptações analisadas até então neste texto.
Refletindo sobre filmes da época, cachorros como protagonistas era algo explorado entre diferentes produções dos anos 80. Como é o caso de Lassie Come Home (1943), longa clássico sobre a lealdade de uma cadela e sua jornada para reencontrar seu dono. O vínculo emocional construido pelo o roteiro de Burton entre Victor e Sparky reforça essa mesma relação de afeto incondicional. O mesmo pode ser perceptível em Old Yeller (1957), em que o luto e a dor da perda de um animal querido são explorados de maneira marcante, sentimentos esses que também movem a trama de Frankenweenie.
Por outro lado, Cujo (1983), também baseado na obra de Stephen King, me lembrou Frankenweenie de outra maneira, aprofundando melhor o lado sombrio do vínculo humano-animal. O cão, infectado pela raiva na trama, transforma-se em uma ameaça incontrolável. Tim Burton parece brincar com essa dualidade, subvertendo o papel de "cão-monstro": Sparky, no curta, é trazido de volta dos mortos, mas se mantém dócil, carinhoso e protetor — mais próximo de um herói do que de um vilão.
1990 - Frankenhooker (Frank Henenlotter)

Esse foi, de longe, o filme que menos gostei em minha maratona — o que é irônico, já que ele é a única adaptação em que temos uma “mulher Frankenstein” e que, por esse motivo, deveria ser um dos meus favoritos por abordar a figura feminina como protagonista. Entretanto, a mulher aqui é completamente objetificada e apagada. A proposta até poderia ser interessante, mas o resultado é um filme extremamente caricato, com atuações ruins e um roteiro que não me prendeu em nenhum momento.
O foco aqui está muito mais no criador do que na criatura. Jeffrey, o “cientista”, tenta reviver sua namorada Elizabeth depois de um acidente bizarro, mas faz isso juntando partes de prostitutas que ele mesmo mata. A fala dele, “posso transformá-la no que quiser, só preciso ter as partes certas”, resume bem a forma como o corpo feminino é tratado no filme: como um objeto desmontável e remontável de acordo com a vontade masculina. Além disso, é chocante a quantidade de comentários que li de homens elogiando o filme, o que me fez pensar bastante sobre quem é o público-alvo desse tipo de produção: um longa feito de homens para homens.
Ainda assim, tem um ponto que me chamou atenção: a ideia de que a Frankenhooker (Elizabeth) volta com múltiplas personalidades, já que é feita da junção de várias mulheres. Em várias cenas, ela fala como se essas vozes estivessem dialogando dentro dela. Esse detalhe também me lembrou Cemitério, do Stephen King — tanto o livro quanto o filme, ambos lançados nos anos 80 —, onde os mortos voltam diferentes depois de um ritual para ressuscitá-los, com uma nova personalidade. Além disso, é inegável que Frankenhooker dialoga com outras obras de terror e comédia lançadas em anos próximos, como Re-Animator (1985) e The Man with Two Brains (1983), que também exploram cientistas excêntricos, experimentos absurdos e uma combinação de horror com humor satírico.
Apesar de tudo isso, não consegui gostar. É um filme que tenta ser engraçado e satírico, mas acaba sendo apenas desrespeitoso e entediante. Uma pena que a única mulher-monstro dessa análise seja tão mal representada. Ela até tem o nome da Elizabeth, o par romântico de Victor do livro original, mas não tem qualquer profundidade real — só um corpo feito para ser observado.
2002 – May (Lucky McKee)

Dirigido por Lucky McKee, May é, talvez, o filme que possui a criatura mais perturbadora de todas para mim. A produção audiovisual narra a história de May, uma veterinária solitária que tenta criar a amiga perfeita juntando partes de outros corpos, depois que sua boneca — que, aliás, era sua única amiga — é quebrada por crianças cegas dentro de um espaço de ajuda em que a protagonista trabalha. A criatura criada por May é assustadora, e os minutos finais tem um clima de desconforto para o telespectador.
A cena final em que May retira o seu próprio olho para colocar na sua criação é bizarra e, definitivamente, uma das cenas que mais me marcaram durante todo o filme, que apesar de interessante, tem um ritmo maçante e um roteiro com falhas. Embora demore para mostrar que é um reconto de Frankenstein, é clara a conexão entre as duas obras na obsessão por criar algo ideal e, principalmente, na solidão da criadora, algo que inverte completamente o papel que antes era algo exclusivo da criatura.

Não é coincidência que Angela Bettis, a atriz que dá vida à protagonista de May, também tenha interpretado Carrie White em uma adaptação televisiva lançada no mesmo ano. Essa sobreposição de papéis transforma May quase em uma continuação espiritual de Carrie — ambas são mulheres solitárias, rejeitadas, reprimidas, e que acabam canalizando o trauma em formas de violência extrema. Em May, no entanto, essa violência não é desencadeada por terceiros, mas sim construída cuidadosamente, como um projeto íntimo e silencioso de alguém que nunca aprendeu a conviver com o mundo.
2024 – Lisa Frankenstein (Zelda Williams)

Por fim, Lisa Frankenstein (2024) entrou direto na lista dos meus filmes favoritos — e não foi só pela estética ou pela trilha sonora nostálgica como “The Promise”, do When In Rome. Foi pelo modo como ele desconstrói ideias de amor, corpo e desejo com um toque de humor e uma sinceridade emocional surpreendente, apesar de ser um “filme para adolescentes” como menosprezam alguns críticos. O longa acompanha a vida solitária de Lisa, uma adolescente solitária, que encontra refúgio em visitas ao cemitério da cidade. É justamente em uma dessas visitas que ela, de forma inconsciente, dá vida a um garoto morto-vivo. A criatura que emerge do túmulo é um zumbi incompleto, carente de partes do próprio corpo. Ao longo da narrativa, é Lisa quem assume a responsabilidade de reconstruí-lo, costurando nele novos pedaços — literalmente. Essa dinâmica subverte o clássico papel feminino passivo: aqui, é a garota quem conduz o experimento, quem dá forma e sentido à criatura.
O ponto que mais me chamou atenção foi em uma cena, quase no final, em que a criatura demonstra não ter a genitália masculina e Lisa, sem hesitar, considera isso irrelevante. Esse detalhe, que poderia ser usado como piada em tantos outros filmes, como em Frankenhooker, é tratado com uma naturalidade que me tocou. O afeto entre eles não depende da completude física, e sim de algo mais íntimo, mais verdadeiro. Lisa Frankenstein me tocou justamente por afirmar que até o “monstro”, é digno de amor, o que difere de outras obras analisadas neste texto.
Nos últimos anos, houve uma verdadeira valorização das protagonistas “estranhas” ou “desajustadas” — personagens que antes eram colocadas à margem, mas que agora ganham o centro da narrativa. A chamada "weird girl", muitas vezes representada por figuras góticas, melancólicas ou obcecadas por temas mórbidos, tornou-se um ícone pop. Wandinha, da Netflix, talvez seja o exemplo mais óbvio, mas esse tipo de personagem está por toda parte: meninas introvertidas e com gostos excêntricos que desafiam os padrões de feminilidade tradicional. Lisa, em Lisa Frankenstein, representa exatamente isso: uma adolescente deslocada, com uma sensibilidade própria, uma certa morbidez romântica e, principalmente, agência — mesmo que suas escolhas sejam caóticas. O filme abraça essa figura da garota "esquisita", dando a ela espaço, voz e poder, ainda que por meios pouco convencionais (e sangrentos).


Não é à toa que Lisa Frankenstein conversa tanto com o humor negro de Heathers (1988) ou até com o romantismo sombrio de Crepúsculo (2008). Como Bella, Lisa é fascinada pelo que é estranho — e não tenta consertar aquilo que ama. Como Veronica em Heathers, ela está cercada de absurdos sociais e reage com um misto de deboche e violência performática. O resultado é um filme que mistura horror, comédia, romance e crítica de gênero sem nunca soar forçado.
Além disso, o próprio momento em que o longa foi lançado está profundamente atravessado por discussões sobre corpos, identidades e afetos não normativos. Pautas como a transexualidade, a não-binariedade e a liberdade de expressão de gênero estão ganhando força no debate público e cultural — e isso transborda para o cinema. Lisa se apaixona por um corpo que escapa das definições tradicionais de “masculinidade” e, ao fazer isso, o filme desafia a noção do que é considerado “desejável”. A ausência de genitália na criatura não é um problema — é uma afirmação. O que importa ali é o afeto e o cuidado. Amar, aqui, é um gesto de resistência.
Em conclusão, a criatura de Frankenstein continua viva em muitos sentidos, ultrapassando a mente de leitores, como eu, obcecados pela obra de 1818. De filmes sombrios a comédias românticas e até passando por musicais, ela resiste, muda e ganha novas camadas. Assim como Lefevere propõe, cada adaptação é uma reescritura, e talvez seja justamente isso que torna Frankenstein eterno.
REFERÊNCIAS:
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BROOKS, Mel. Young Frankenstein. Estados Unidos: 20th Century Fox, 1974.
CATTRYSSE, Patrick. Film (Adaptation) as Translation: Some Methodological Proposals. 1992.
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FRANKENSTEIN. Direção de J. Searle Dawley. Estados Unidos: Edison Studios, 1910. (curta-metragem)
FRANKENSTEIN. Direção de James Whale. Estados Unidos: Universal Pictures, 1931.
FREARS, Stephen. Dangerous Liaisons. Estados Unidos: Warner Bros., 1988.
Glee. Criação de Ryan Murphy, Brad Falchuk, Ian Brennan. Estados Unidos: Fox, 2009–2015. Série de TV.
GOLDBERG, Alfred; GLICKMAN, Miles; GOYER, David. Wednesday. Estados Unidos: Netflix, 2022. Série de TV.
HITE, Shere. The Hite Report: A Nationwide Study of Female Sexuality. New York: Macmillan, 1976.
HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. São Paulo: Unesp, 2013.
LEFEVERE, André. Tradução, reescrita e manipulação da fama literária. Bauru, SP: Edusc, 2007.
LEMOND, Frank. There’s a Girl in My Soup. Reino Unido: Columbia Pictures, 1970.
MAY, Elaine. Cactus Flower. Estados Unidos: Columbia Pictures, 1969.
MEYER, Stephenie. Crepúsculo. São Paulo: Intrínseca, 2008.
O’HARA, Zelda Williams. Lisa Frankenstein. Estados Unidos: Focus Features, 2024.
SHAPIRO, David. Heathers. Estados Unidos: New World Pictures, 1989.
SHELLEY, Mary. Frankenstein ou o Prometeu Moderno. São Paulo: Penguin Companhia, 2014.
SLOCOMBE, Douglas. The Rocky Horror Picture Show. Reino Unido: 20th Century Fox, 1975.
STAM, Robert. Introdução à teoria da adaptação. São Paulo: Papirus, 2008.




Excelente a abordagem a forma de abordagem crítica. Ressaltou algo muito importante para o entendimento do papel do crítico: entender que as obras só podem ser bem compreendidas em seus contexto de criação e em cada época de sua recepção. Muito bem escrito, num tom pessoal sem afetação.