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“Amanhecer na Colheita” e como a mídia pode deturpar imagens

  • Foto do escritor: Mnemósine
    Mnemósine
  • 23 de jun. de 2025
  • 5 min de leitura

Por Eduarda


Amanhecer da Colheita, novo livro de Suzanne Collins, nos leva de volta ao universo de Jogos Vorazes seguindo com um olhar mais maduro, mostrando outro lado da política de Panem. Originalmente lançado em março de 2025, a narrativa se passa antes dos acontecimentos da trilogia original, que seguiu os personagens Katniss Everdeen e Peeta Mellark, e também depois de A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, obra que aborda a construção do Presidente Snow, o vilão da saga.


Na história, acompanhamos a Quinquagésima Edição dos Jogos Vorazes, sendo ela a segunda comemoração do Massacre Quaternário. Aqui, cada um dos doze distritos irá mandar o dobro de tributos para os jogos, totalizando 48 jovens entre 12 e 18 anos, e apenas um deles vencerá. Haymitch Abernathy é um dos escolhidos para representar o seu distrito, e ao lado de sua irmã de consideração, uma moça que odeia e um rapaz viciado em apostas, ele irá tentar vencer a competição para voltar para sua família.


“I don't sing when I'm told, I sing when I have something to say.”


(Eu não canto quando sou mandada a fazer isso, eu canto quando tenho algo para contar.)


Enquanto refletia sobre a leitura, não consegui deixar de lembrar dessa frase dita pela personagem Lucy Gray em A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes. Para mim, é claro que Suzanne Collins publicou um novo livro dentro deste universo não por ordem da editora, ou para lucrar em cima disso — como acontece em outros casos onde autores aproveitam do sucesso de seus livros para lançar outros, unicamente por dinheiro —, mas sim porque ela queria mostrar algo importante dentro dessa nova narrativa.


Na minha visão, o ponto chave da obra é como a mídia de Panem molda a história do segundo Massacre Quaternário, escolhendo o que favorecer e o que prejudicar, moldando a visão dos habitantes da capital e dos distritos que assistem aos jogos. Foi então que refleti comigo mesma e pensei: não é isso que vem acontecendo na vida real há anos?


Assim como em Amanhecer da Colheita, também presenciamos como governos e instituições deturpam narrativas a seu favor, muitas vezes transformando o sofrimento em espetáculo ou apagando completamente a relevância de momentos que poderiam, e podem, mudar a história.


Alerta de Spoiler

Foi quando no final do livro, em que Haymitch finalmente assiste a sua edição da competição e nota que diversas cenas foram cortadas, que eu lembrei do famoso debate presidencial entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva. Na obra, Haymitch tem suas atitudes totalmente deturpadas do que realmente aconteceu. Cenas em que ele ajuda seus aliados, dando comida e os protegendo, foram cortadas e editadas para parecer que nada daquilo tinha acontecido. Na verdade, a história que foi mostrada para a capital foi um menino sendo egoísta e abandonando seus próprios amigos para salvar a si próprio.


No Brasil, a TV Globo — maior emissora do país — editou o resumo do debate presidencial de 1989 e o exibiu no Jornal Nacional favorecendo Collor, destacando seus melhores momentos e os piores de Lula, influenciando a opinião pública que acarretou no resultado das eleições daquele ano. Durante a ditadura, os meios de comunicação foram censurados e controlados pelo governo. Jornais, rádios e emissoras de TV eram proibidos de divulgar informações que criticassem o regime, e notícias eram supervisionadas antes da publicação. Muitas manchetes omitiram torturas, assassinatos e desaparecimentos políticos, criando uma falsa sensação de estabilidade no país, como é mostrado no filme Ainda Estou Aqui (2024).


Alerta de Spoiler

Com a chegada da Inteligência Artificial, a manipulação da verdade ganhou novas formas, e Suzanne Collins não deixa isso passar despercebido em Amanhecer da Colheita. Um exemplo é o caso da personagem Louella, que morre durante o desfile dos tributos e é substituída por uma dublê sob mandato do Presidente Snow. Agora, Haymitch e os demais precisam fingir que Louella ainda está viva, enquanto o presidente engana a Capital, ocultando a tragédia. A substituição mal é notada pelos telespectadores.


Essa parte da história me lembrou das deepfakes, que consistem em vídeos ou áudios manipulados com IA, usados para colocar pessoas dizendo ou fazendo coisas que nunca fizeram. Em 2024, por exemplo, vídeos de Joe Biden e Donald Trump foram utilizados em campanhas de desinformação, distorcendo seus discursos com o objetivo de manipular e inflamar seus apoiadores. Além disso, casos semelhantes em que a tecnologia tem sido usada para confundir e enganar continuam acontecendo, e não são difíceis de encontrar uma vez que estão tão em alta.

Reprodução Itaiaia
Reprodução Itaiaia
Reprodução Cartazcapital
Reprodução Cartazcapital

Opinião


Sou fã da saga desde muito nova, assisti ao primeiro filme com apenas onze anos e revejo a trilogia original desde essa época, então não pude deixar de sentir uma nostalgia enorme lendo Amanhecer da Colheita. De início, confesso que estava bastante animada com o livro por se tratar da história de um dos meus personagens favoritos da série. Contudo, tiveram algumas coisas que me incomodaram um pouco na leitura. O fanservice, as referências jogadas de forma muito direta logo nas primeiras páginas pareceu um pouco de exagero para agradar os fãs. Em certos momentos, parecia que eu estava em 2013 lendo uma fanfic sobre os jogos do Haymitch em um site aleatório.


Porém, conforme a história avançava, eu entendi o porquê dessas referências estarem presentes na narrativa. No final, tudo faz sentido, e mostra para o leitor uma nova forma de enxergar a trilogia original. Especialmente no segundo livro da série, agora consigo ver que não foi apenas a Katniss a ser punida pelo Presidente Snow, e sim, todos os tributos “sorteados” para a terceira edição do Massacre Quaternário. Tudo teve um motivo, afinal.


Apesar da dinâmica dos acontecimentos do livro já ser conhecida, o que realmente chama atenção é a forma como Collins explora os personagens — tanto os da trilogia original, que ganham novas camadas e são mostrados sob uma perspectiva diferente, quanto os personagens novos, que enriquecem ainda mais a narrativa. Para mim, a autora fez um trabalho incrível com o desenvolvimento deles ao longo dos cinco livros da saga. As identidades construídas por Collins são tão interessantes que fazem qualquer leitor querer um livro só para saber mais sobre a vida de cada um. E não falo apenas do Haymitch, Finnick ou dos personagens que aparecem neste volume, pois a lista dos que mereciam destaque é, pasmem, infinita.


Apesar de já saber parte do que ia acontecer, principalmente nos Jogos, e de sentir certo cansaço com repetições, Amanhecer da Colheita me surpreendeu. Admito que o epílogo se tornou a minha parte favorita de todo o livro e me fez colocar ele no segundo… ou terceiro lugar no meu ranking pessoal dos livros da série. Ele não só acrescenta novas camadas à história de Panem, como também me deu vontade de reler toda a série, mesmo tendo relido no ano passado (risos).



 
 
 

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