A xenofobia por trás do Boys II Planet
- Mnemósine

- 15 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
Por Duda Cipriano

Exibido pela primeira vez em Julho de 2025, o Boys II Planet é um reality show produzido pela Mnet, emissora sul-coreana, em que o objetivo final é formar um grupo musical masculino com integrantes chineses e coreanos. Entre 160 participantes, apenas oito garotos foram escolhidos através do voto popular, tanto global quanto nacional, para serem inseridos no mercado do K-pop com um contrato de seis anos. Parece simples, certo? Contudo, não foi bem assim que funcionou.
Não é segredo que o K-Pop se tornou um soft power relevante para a Coreia do Sul, isso porque a música é algo universal e não é necessário entender um idioma para conseguir apreciá-la. Não é atoa que crescemos ouvindo músicas em inglês sem ao menos imaginar do que se trata na letra, como o clássico exemplo dos anos 90, em que o grupo musical americano 20 Fingers apresentou músicas inapropriadas para as crianças no programa da Xuxa.

O sucesso fez o K-Pop crescer para fora da Coreia, ao ponto de muitos estrangeiros passarem a sonhar em se tornar idols, chegando a deixar seus próprios países para treinar em empresas coreanas. Seguindo esta lógica, o programa Boys II Planet que irei analisar buscou uma nova proposta em sua terceira temporada ao juntar meninos da China e da Coreia do Sul em um único grupo, refletindo diretamente sobre este fenômeno em que falo.
Por consequência, os problemas começam quando a emissora do reality vende o programa como global, voltado para unir trainees — jovens que ainda estão fazendo um treinamento para estrear em um grupo — de diferentes países, enquanto sua estrutura e recepção ainda são fortemente moldados pelo público coreano. Programas responsáveis por formar grupos na Coreia do Sul dependem diretamente da aprovação popular nacional, já que muitas vezes o sistema de votação é definido com base no interesse do público local. No Boys Planet, por exemplo, os votos coreanos valem em torno de 50%, enquanto os votos globais, divididos entre outros países como China, Brasil, Estados Unidos e entre outros, valem o restante.
Mesmo sob o discurso de diversidade, o programa continuou priorizando os participantes coreanos de diversas formas, como na edição, na produção e nos cuidados oferecidos. O programa eliminou significativamente mais trainees chineses do que coreanos, favorecendo os coreanos com avaliações mais altas, enquanto atribuía notas baixas aos chineses, mesmo quando ambos demonstravam habilidades semelhantes, ou até iguais. Dos 80 trainees chineses que participaram, 52 foram eliminados nos dois primeiros episódios pelos jurados do programa, restando apenas 28. Na final, composta por 16 participantes, apenas 4 eram chineses.
As diferenças de tratamento também se estendiam às condições do programa: o grupo coreano (Planet K) teve a oportunidade de fazer chamadas de vídeo com suas famílias, enquanto o grupo chinês (Planet C) pôde apenas realizar ligações comuns, com tempo limitado. Além disso, o dormitório era dividido entre os dois núcleos, enquanto os participantes chineses dormiam em beliches e um quarto menor, os coreanos tinham camas separadas, um espaço confortável e guarda-roupas para cada participante, ilustrando a inferioridade entre os dois grupos.


Após serem eliminados, os próprios trainees chineses relataram em lives e na rede social chinesa Douyin problemas com a alimentação. Segundo eles, tudo, exceto o arroz, era servido frio, e a produção fornecia apenas pequenas porções de vegetais em pratos descartáveis. Além disso, a maioria não tinha destaque nos episódios e quando tinha eram feitas edições maldosas, os fazendo parecer vilões dentro da narrativa escolhida pelos editores do programa. Esses exemplos, além de reforçarem as diferenças de tratamento, se encaixam em uma forma de manipular os votos do público ao não dar visibilidade e tempo de tela para eles, afinal quem votaria em quem não é visto? Ou melhor, quem votaria em uma pessoa de má índole?
O preconceito não começou no Boys II Planet
Antes da existência da franquia Planet, a mesma emissora produziu outro programa de sucesso: a franquia Produce. Seguindo o mesmo formato das temporadas de Boys Planet, Produce contou com quatro edições antes de passar por um rebranding, em decorrência do escândalo de manipulação de votos em 2019, que resultou na prisão de produtores envolvidos. Na terceira temporada, os roteiristas apresentaram uma proposta semelhante à de Boys II Planet, sugerindo dividir as participantes entre coreanas e japonesas — estas últimas sendo integrantes do grupo de J-Pop AKB48. Assim, nasceu o Produce48 (junção de Produce + AKB48).
Apesar da proposta inicial de formar um grupo feminino que fosse promovido tanto na Coreia do Sul quanto no Japão, o programa acabou reforçando desigualdades entre as participantes, demonstrando o mesmo problema de xenofobia do Boys II Planet. Desde o primeiro episódio, as japonesas foram apresentadas de forma inferiorizada, com foco nas diferenças culturais entre os dois países. Embora já fossem cantoras profissionais no mercado japonês, os jurados e a edição do Produce48 destacaram que elas não possuíam o mesmo nível técnico em canto e dança que as coreanas.
As próprias participantes explicaram que, no Japão, o carisma e a capacidade de encantar o público são mais valorizados do que a perfeição técnica, pois os artistas se destacam pela forma como se divertem e interagem com os fãs durante as apresentações. Já no mercado coreano é priorizado um perfeccionismo marcante, exigindo de seus artistas um treinamento rigoroso antes da estreia, com o objetivo de alcançar a máxima perfeição em canto e dança.


No entanto, Produce48 acabou transmitindo a ideia de que as participantes coreanas eram superiores, desconsiderando o contexto cultural e artístico distinto das japonesas. Essas, além de enfrentarem a barreira linguística e a ausência de mentores que falassem japonês, não receberam o mesmo tipo de treinamento oferecido às coreanas, o que reforçou a desigualdade entre os grupos e prejudicou o equilíbrio da competição.
O programa propôs unir as culturas japonesa e coreana em um único programa, mas acabou mantendo apenas o “modelo de artista coreano” ao longo dos episódios. Em vez de promover um equilíbrio entre ambas as maneiras de ser um artista na Ásia, o programa expôs diversas vezes as participantes japonesas à humilhação pública, especialmente por iniciarem o treinamento artístico apenas dentro da competição. Apesar de o grupo final, IZ*ONE, ter sido criado com o propósito de promover seus álbuns tanto na Coreia quanto no Japão, as trainees foram treinadas exclusivamente seguindo os padrões coreanos, sem levar em conta as diferenças culturais entre os países. Juntamente a isso, com exceção de apenas um, todos os mentores eram coreanos e não falavam japonês, o que tornava a dinâmica ainda mais injusta e desigual.


No início do programa, havia uma aparente tentativa de equilíbrio, com músicas divididas entre os dois idiomas. No entanto, essa justiça durou pouco: nas etapas seguintes, as participantes passaram a se apresentar apenas com músicas em coreano, com exceção da final, quando cantaram uma única música em japonês.
Em resumo, tudo isso mostra que a Coreia do Sul ainda tem dificuldades em aceitar estrangeiros, já que a xenofobia ainda continua presente no país. Isso não acontece só nos realities, mas também dentro da própria indústria do K-pop e do país, onde muitos idols e pessoas de outras nacionalidades enfrentam dificuldades e são tratados de forma diferente por serem de outro países. O Boys II Planet acaba sendo um reflexo claro disso, mostrando na TV o mesmo tipo de discriminação que ainda existe na sociedade coreana até hoje.




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