A mediocridade é pior que a morte? Uma análise das músicas “Ordinary Man” e “Simple Man”
- Mnemósine

- 17 de mai. de 2025
- 5 min de leitura
Por Júlia
Antes de começar a análise preciso que você responda qual das duas situações abaixo enche seus olhos?
Situação 1: viver uma vida que seria lembrada por outras pessoas e recontada por você várias vezes (com orgulho) sobre suas aventuras e feitos ao redor do mundo?
Situação 2: viver uma vida simples ao lado de pessoas que você ama e apreciar as pequenas coisas ao seu redor, sem muitas emoções, mas confortável e feliz?
Essas duas premissas me fazem lembrar duas músicas do rock que se diferem entre si na composição, mas que se igualam na qualidade das canções: Ordinary Man (Homem Comum) do Ozzy Osbourne ft. Elton John e Simple Man (Homem Simples) da banda Lynyrd Skynyrd. Embora os títulos das canções sejam semanticamente parecidas, nessa análise irá mostrar que o ‘simples’ e o ‘comum’ tem uma diferença significativa na percepção no modo de escolha de viver a vida, uma que canta sobre o medo de ser comum e a outra que encontra nisso a felicidade.
O conceito de ordinário é aquilo que não tem destaque, comum, portanto medíocre. É senso popular ter uma percepção negativa sobre esse conceito, Bob Fosse, o único diretor a ganhar os três principais prêmios de direção da indústria americana (Oscar, Emmy e Tony) no mesmo ano em 1973, afirma que “tenho mais medo da mediocridade do que da morte”. Nesse contexto, não é de se espantar que o príncipe das trevas, Ozzy Osbourne, escreveu sobre o medo da mortalidade e o que ela implica, entre um deles o esquecimento por não ter deixado um legado, repetida pelo refrão da música “a verdade é que não quero morrer como um homem comum” (the truth is I don't wanna die an ordinary man)
Para quem conhece o mínimo do vocalista do Black Sabbath seguida pela carreira solo sabe que ele teve tudo menos uma vida sem destaque, desde seu legado musical até os momentos pessoais (momentos esses que são assistidos pelo próprio Ozzy durante o videoclipe da música). A própria produção do álbum, que leva o mesmo nome da canção, demonstra isso. O álbum foi o 12° de estúdio, considerado por muitos como uma despedida do cantor, já que ele a um tempo enfrenta problemas de saúde física e neurológicos, mas que ainda sim conseguiu lançá-lo. A faixa escolhida lida com o medo da efemeridade da vida e do sucesso, da preocupação de não ter vivido uma vida que será lembrada, como mostra nos seguintes trechos: “não me esqueça enquanto as cores desbotam/ quando as luzes se apagarem/ é somente um palco vazio” (Don't forget me as the colors fade/ When the lights go down/ It's just an empty stage), “eu não quero dizer adeus/ Quando eu dizer, tudo ficará bem” (I don't wanna say goodbye/ When I do, you'll be alright).


Não querer morrer como um homem comum, mesmo com uma vivência de excessos e desafios, revela a preocupação de não deixar um impacto no mundo. São vários os exemplos na arte que me lembram esse sentimento melancólico passado pela música, na literatura O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde (1890), no qual o jovem Dorian ao temer perder a única coisa que o destacava do resto das pessoas (a beleza perfeita), estabelece um pacto em troca da juventude eterna. Já no cinema Quase Famosos (2000) do diretor Cameron Crowe, que mostra a busca dos personagens por reconhecimento e uma vida que além de lembrada será notada. Ambos tentam ao máximo ter uma vida que não passaria despercebida pela maioria das pessoas e com certeza não seria ordinária assim como espera o Ozzy Osbourne.


Mas será que todos pensam dessa forma?
Para o eu lírico da música Simple Man com certeza não. Não é preciso de excessos ou da “[...] luxúria pelo ouro de um homem rico” (lust for the rich man's gold), mas sim das “pequenas” coisas como ser “algo que você ama e entenda” (something you love and understand) e seguir “seu coração e nada mais” (you heart and nothing else). A mensagem transmitida pela canção é simples e leve, traz uma sensação de conforto e segurança para quem escuta (nem parece que estou falando de uma banda de rock). Um trecho retirado do livro Girândola de Amores do romancista brasileiro Aluísio de Azevedo mostra que o comum traz uma certa felicidade, “não queiras nunca barulhentas glórias; não te queiras fazer saliente e notável, antes procura a doce paz de uma obscura felicidade. E isto, só a boa mediocridade nos pode proporcionar de um modo verdadeiramente seguro e constante”.
A mediocridade, aqui, não é motivo para se envergonhar ou ser encarada com o sentido negativo que a palavra carrega, mas sim da importância da simplicidade e a beleza de encontrar sentido no comum e no dia a dia. Mais uma vez as artes se encarregam de representar essa percepção, na literatura dessa vez me lembro das aulas que tive ao estudar o Arcadismo, escola literária criada no século XVIII que retoma os ideais da cultura greco-romana. São inspirados nos preceitos latinos que clamam pela simplicidade, como Carpe Diem, isto é, aproveitar o agora; Aurea Mediocritas, ou seja, o homem mediano é aquele que alcança a felicidade sem precisar de posses ou riquezas e entre outros que traz a calmaria do campo associado a melhor qualidade de vida. No cinema, trago a referência de um dos meus filmes favoritos: Capitão Fantástico (2016) do Matt Ross, que conta a história do cotidiano de uma família morando na floresta, pois foi a solução encontrada pelos pais para “fugir” do mundo cruel. Permeado de paisagens belíssimas, pai e filhos convivem entre si (nem sempre harmonicamente) somente com o que lhe é ofertado pela natureza.

CENAS DO FILME CAPITÃO FANTÁSTICO (2016):


Embora esses dois casos tragam uma imagem idealizada de uma vida simples, ambos contribuem para quebrar o estigma de que somente uma vida cheia de grandes atos é necessária para uma vida feliz. A letra de Simple Man é um grande conselho dado por uma mãe, na qual é alguém que sempre quer o melhor para o filho (ou deveria). Ela nunca esteve tão certa ao dizer “aproveite seu tempo/ não viva com tanta pressa” (Oh, take your time/ don't live too fast), pois não é comum nos dias de hoje desacelerar e ver as coisas boas ao nosso redor, principalmente em uma sociedade que os aspectos sociais da vida cotidiana são medidos pelo tempo (Rosa, 2022). Nessa perspectiva, a música nos faz repensar se a mediocridade seria tão ruim a ponto de ser preferível a morte.
O que me resta dizer é que a escolha para a pergunta inicial da análise parece ser encontrar o meio termo entre os dois (se é que existe). Viver uma vida que encontre o perfeito equilíbrio da balança entre não se perder tentando viver o máximo que pode o tempo inteiro, mas também, não acreditar que passar a vida inteira na sua bolha de conforto seja o ideal. Por fim, esses dois clássicos do rock conseguiram a sua maneira entregar duas fantásticas canções que me fizeram refletir por horas sobre meu/nosso próprio caminho a seguir.




Comentários